À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
EM BENGUELA: Tabacaria Grilo, edifício do Mercado Municipal, rés-do-chão. EM LUANDA: Livraria Lello, Livraria Mensagem, Livraria do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, sala de embarque. Pode também comprar na sede da União dos Escritores Angolano, Largo das Escolas, nas imdediações do Largo das Heroínas. O autor agradece!

segunda-feira, 14 de abril de 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Nda ndufeko, si kwela osivili; osivili otamba yomulingi. Haka!"

Entre 1988-90, na comuna da Equimina, município da Baía Farta, uma das canções de militares (para sua auto - motivação), na língua Umbundu, dizia: "Nda ndufeko, si kwela osivili; osivili otamba yomulingi. Haka!"

TRADUÇÃO
Se eu fosse moça, não me casaria com um homem civil; o civil é comparado à uma tampa de moringue. Oh!"

ENQUADRAMENTO
A imagem que me ocorre também não é concreta. Será por ser algo de pouco valor a tampa de moringue? Seria porque a tampa de moringue é algo que se perde facilmente e quiçá difícil de preservar (do tip, é um companheiro susceptivel a rusgas mais tarde ou mais cedo)? Ou seria por se ver que a maioria dos moringues cumprem o seu papel sem se ressentir da ausência de tampa? Para terminar, já agora, os moringues do teu bairro, no que te lembres, tinham tampas? Hahaha

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ORATURA: "Pungunda wukwanjeke, opo pekuto lyukwavipepe" (adágio Umbundu muito cantado nos hinos cristãos da igreja da minha família)

"Pungunda wukwanjeke, opo pekuto lyukwavipepe" (adágio Umbundu muito cantado nos hinos cristãos da igreja da minha família) - na queda (trambolhão?) de quem levava o saco, é onde se sacia o faminto.

Enquadramento: se algum abastado que leva um saco de produto alimentar (farinha, por exemplo) cai e o conteúdo se espalha no chão, aquele que enfrenta a penúria aproveita. Ou seja, na dialéctica da vida, a desgraça de uns pode representar oportunidade de outros. Bom dia

quarta-feira, 26 de março de 2014

Akulu valinganga hati: "NDA O KASI KUWA, KUVI KA PASULE KO." (Umbundu)

Akulu valinganga hati: "NDA O KASI KUWA, KUVI KA PASULE KO." (Umbundu) - Os mais velhos disseram: SE ESTÁS NO LADO DO BEM, HÁ QUE IR VISITANDO O LADO DO MAL (ou seja, Se ESTÁS NA FARTURA, É BOM EXPERIMENTAR DE VEZ EM QUANDO O LADO DA ESCASSEZ).

PS: partilhado por Luis Kandjimbo através do grupo ETUMBULUKO LYE LIMI LYUMBUNDU. Tradução minha

terça-feira, 25 de março de 2014

"VULEÑE MWAPWA" (expressão Umbundu)

"VULEÑE MWAPWA" (expressão Umbundu) - reservatório vazio. 
Enquadramento: Uleñe é geralmente uma panela grande, de barro ou não, onde se guarda a fuba (farinha de milho ou mandioca). Diz-se quando se regista um vazio, como por exemplo de ideias ou de forças. É como me sinto agora, foram-se as ideias. Ou seja, "Vuleñe mwapwa" hahahaha

segunda-feira, 24 de março de 2014

ORATURA: "Kanjende nda oluka omõla waye, ove yevelela" (máxima Umbundu)

"Kanjende nda oluka omõla waye, ove yevelela" (máxima Umbundu) - Quando uma experiente mulher dá nome ao seu recém-nascido, você deve ficar atento.

Enquadramento: entre os ovimbundu, tal como ocorre em vários outros grupos étnicos de matriz Bantu e pré-Bantu, o nome próprio, que pode também ser herdado do xará, é na verdade sempre carregado de significado. Pode ser um provérbio, marco de um acontecimento, um receio ou forma de responder ou desafiar os deuses. Vou colocar na secção dos comentários matérias sobre o assunto, elaboradas no contexto dos blogues e do Jornal Cultura.

sábado, 22 de março de 2014

"Ku kalile/ sanga ame ndililavo/ ndicuhinlã/ ciñokela ekaka" (Umbundu)

"Ku kalile/ sanga ame ndililavo/ ndicuhinlã/ ciñokela ekaka"(Umbundu) - Não chores/ senão eu choro também/ se me calo a isso/ dá-me nó na garganta (angústia).

Excerto da musica "Trititi", do já falecido Viñi-Viñi, do Huambo, nome artístico que corresponde a Etc., Etc. A música saiu mais ou menos em 2002/3, referindo-se ainda à dor de um pai que nada tinha para dar de comer à sua criança, a quem deu o nome de Trititi, por sua vez uma onomatopeia ao som de tiroteios de guerrilha.

quinta-feira, 20 de março de 2014

"Vimo vepya" (aforismo Umbundu)

"Vimo vepya" (aforismo Umbundu) - No ventre de mãe é na lavra.
Enquadramento: diz-se quando filhos de uma mesma mãe apresentam diferenças, quer físicas, quer comportamentais, um paralelismo com a variedade de espécies que geralmente caracteriza um cultivo.

segunda-feira, 17 de março de 2014

"U halimi upewa ovipungu, u hatumbi onongombe upewa omalungangundi /omphembe"- (adágio Nyaneka-Nkhumbi)

"U halimi upewa ovipungu, u hatumbi onongombe upewa omalungangundi/omphembe"- (adágio Nyaneka-Nkhumbi)

-Tradução: a quem não cultiva deve-se oferecer sobejos de mantimentos, a quem não gosta de criar bois deve-se oferecer restos de leite azedo.
(colhido por Ovídio Pahula, in 'No Fundo da Pedra Há Um Tchingono, pág 23. Brigada Jovem de Literatura-Kunene. 2006)

sábado, 15 de março de 2014

"Ukombe vonjo ka li esala, mwenle yimbo wolyavela"

"Ukombe vonjo ka li esala, mwenle yimbo wolyavela" (aforismo Umbundu) - O hóspede não come o ovo, foi-lhe cedido pelo anfitrião.

Enquadramento: ao julgarmos o recém-chegado, há que apurar as responsabilidades do anfitrião.

"Ekunde ku alile ka lyukufeli vimo"

"Ekunde ku alile ka lyukufeli vimo" (adágio Umbundu) - Não te causa indigestão o feijão frade que não comeste. 

Enquadramento: se não cometeste o erro, não tens que ter peso de consciência ou temer consequências.

"Ku nununle, ku ende uteke; kuna waile okayevala" (aforismo Umbundu)

"Ku nununle, ku ende uteke; kuna waile okayevala" (aforismo Umbundu) - não andes pela noite nem pela ponta dos dedos do pé; notícias de onde foste sempre virão. 

Enquadramento: é inútil escamotear a verdade; mais tarde ou mais cedo, ela vem à tona.

Por estas e por outras razões, tenho o grato orgulho de ter sentado na carteira para aperfeiçoar o meu inglês (sobretudo a pronúncia) na Nancy's English School, onde completei o 6º estágio, ainda no ano de 2005.


Sim, para quem estiver em Benguela e se importa (pode) investir nos conhecimentos, aconselho uma visita ao centro da minha amiga Nancy A. Gottlieb, ali pelo jardim do Consulado Português.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Metáforas de um velho indignado para o genro violento

"Kocila ño oko ka twendi, pwãi oñoma kulo yiyevala" (Umbundu)
Literalmente: Só à arena é que não vamos, mas o ritmo do batuque chega até nós. 

Enquadramento: Apesar de não termos o hábito de frequentar o vosso lar, estamos inteirados dos teus excessos.

segunda-feira, 10 de março de 2014

"Wakwimbila ombunje wakukulihinlã okuyakela" (adágio Umbundu)

"Wakwimbila ombunje wakukulihinlã okuyakela" (adágio Umbundu)

Literalmente: quem te atira a bola conhece em ti habilidades para agarra-lá.
Enquadramento: quem te lança um desafio ou delega responsabilidade tem das tuas valências.

segunda-feira, 3 de março de 2014

"Nda omõla kwo longisile, ha wove ko; etimba lyaco lyove, pwãi olondunge vyaco ha vyove ko"

"Nda omõla kwo longisile, ha wove ko; etimba lyaco lyove, pwãi olondunge vyaco ha vyove ko" (Umbundu) - Se não ensinares a criança, não é tua; o corpo é teu, mas o juízo não. 

De um cristão ao programa do amigo Antonio Firmino Antonio, Rádio Lobito, há pouco. Tula!

sábado, 1 de março de 2014

Ao Exmo Senhor Ministro da Administração do Território

Excelência, quando a imprensa escreve Cuanza sul, no lugar de Kwanza Sul, como aliás está no dinheiro, está a corrigir ou a perpetuar uma confusão resultante precisamente da falta de actualização da grafia das línguas Bantu? Qual é a opinião dos Instituto de Línguas Nacionais e do Ministério da Cultura? Não será arriscada, Excelência, essa ideia institucional de que nos vamos reger pela falta de norma?

Angola, repito, entenderá um dia que reside na investigação a chave para a solidez de medidas. Até lá, ficaremos atados ao improviso, ao que a imprensa vende, aos paradigmas nem sempre razoáveis herdados do poder colonial. E os milagreiros de costume nada fazem para encurtar a distância entre as elites e a sabedoria popular. Seria para isso que conquistamos a independência?

Onenlehõ

Kupeletela

6h15 da manhã, sábado, já se foi o sono. Na vizinhança, outra vez em alto volume, toca "nakalungu", estilo sungura, da autoria de Kupeletela, rapaz do Bocoio, que divulga aforismos e adágios em Umbundu. Não me devo chatear, já sei, pois a música é de alguém, como eu, bisneto de Patissa Maliyanu

Alguns trechos: "nakalungu/ nakacekele/ cukwavo olya/caye osoleka (...) cananga mo ceci/olongombe vipokola komunu/omunu ka pokola kwisya yaye/ la ina yaye" (o espertalhão é dinâmico, guarda o que é seu para comer o que é do outro (...) o que me deixa perplexo é que o boi obedece ao ser humano, o ser humano desobedece ao pai e à mãe"

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

ANÚNCIO DO RESULTADO DO CONCURSO DE TRADUÇÃO


Ainda nos tempos difíceis de caçar a paz com a canção, Fedy entoou:



"Akulu vetu/ vata olusapo/ cambata ekumbi calwa/ tulikwati omunga/ konjembo ka kuli elau"


- "Os nossos mais velhos disseram/ em forma de adágio, que muitos mistérios carrega o dia/ Estejamos unidos/ não há fortuna após a morte" 

1º lugar: João Nunda: os nossos mais velhos, contaram uma história, durante o dia pode acontocer muita coisa, vamos nos unir, a pós a morte já ñ existe felicidade. looool, ganhei o consulado do vazio. mano

OBS: Para essa posição, tens o livro Não Tem Pernas o Tempo. Mas se quiseres, por já o teres, outro, que seria o Consulado do Vazio, estás à vontade. 

2º lugar: Fernando Sapalo Katchingona Katchingona: os nossos mais velhos disseram, o dia leva muita coisa, unamos as mãos, na morte não tem vaidade.
OBS:  ficaste em segundo. Para o lugar, tens direito ao Consulado do Vazio, mas se quiseres outro, como seria o Não Tem Pernas do Tempo, abro excepção. 

Obrigado aos que concorreram e aos que acompanharam o exercício. A nossa língua conta connosco para não morrer por falta de uso. Ovilamo! (cumprimentos)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

(Yovuhamba) Umbundu: MBI UMWE OYONGOLA OKUPIÑALA OTELEMÓVÊLÊ YA INAKULU YANGE?

Mbi umwe oyongola okupiñala otelemóvêlê ya inakulu yange?

Twalisanga ponambi olosãyi vyapita ndeti. Inakulu yange Kalonga yu wakala lokuliyeya. Ombangulo yaco yafetika eci vakota lyange vopula vati:
- A vavó, pwãi otelemóvêlê yove yipi?


Eye yu watambulula hati:
- Ame ndakava. Ndaciyikila vomala. Nda umwe oyiyongola, eye ayupe. Ocina oco cilinga okuti ndacilandela ale ekwim lecea (19) kolosaludo, alopo cilya ño olombongo?! Ame oco vo si citenlã!!!


Inakulu yange lolopapelo vyaco ka visilivila vali ka vinilesi. Okutala kosi yutima, walavokaile ño cimwe okuti cilya ño lumosi, catenlã. O otelemóvêlê pwãi yasapa!!!

Catayiwa la Gociante Patissa, veteke ly’akwim vavali lecelãlã, kunyamo wolohulukãyi vivali lecelãlã.
……………………………

 (Do arquivo) Português: ALGUÉM QUER HERDAR O TELEMÓVEL DO MEU AVÔ?

Encontramo-nos num óbito, nesses últimos meses. O meu avô Kalonga pôs-se então a lamentar. A conversa iniciou quando os meus/minhas kotas (irmãos) o questionaram:
- Onde está o teu telemóvel, avô?


Foi então que respondeu:
- Estou farto, fechei aquilo na mala! Se alguém quiser, que venha buscar. Então não basta ter comprado 19 saldos, e aquilo continua a pedir mais (para recarregar), sempre a me dar cabo do dinheiro? Eu também assim não aguento!!!


O avô nem sequer deitou fora os já utilizados cartões de recarga, é como se fizesse colecção. No fundo, ele gostaria mesmo (e como gostaria!) é que o bicho comesse só uma única vez… para toda a vida. É que o telemóvel afinal é guloso!!!

Gociante Patissa, 20 de Maio de 2008

OBS: Foto de autor desconhecido

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"Umbanda womenlã okuhã"

"Umbanda womenlã okuhã"
(Feitiço eficaz para a boca é calar)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Oratura: ONDUKO MUMBEPYA YALOMBOLOKA NYE?

UMBUNDU: ONDUKO MUMBEPYA YALOMBOLOKA NYE?

Vaketu, kalungi!

Twalisula okasimbu po naito, kolombangulo vya tyama kutundasimbu, kovilongwa kwenda alusapo vasangiwa vesinumwinlõ, okupisa polonduko vyomanu.

Kacasapalo, twakala ko lupale wo Kuvale, okutelinsa ohuminyo yokupaswisa umwe tiyu, ndomo twacikulihã ale akuti kokwetu, tuwiñi welimi lyUmbundu, onambi yapita ño kuyu wayipaswisa ale. Volombangulo, ukulu watulombolwila onduko yaye: “Ame Mumbepya [etokeko lya mumba+epya]. Olusapo waco wowu okuti: ndipumba ño epya, si pumbi ekuto”.

Umwe, vendo lyetu wakumbulula hati: “Oyo pwãi onduko yocimonya”. Ukulu yu wamemenako. “Citava”. Yimwe vo okuti tuyinõla mo yeyi okuti, ndaño wandilimili epya, wiya wukwata ocilele cokunditekula”.

Gociante Patissa, keteke lya 17, kosãyi ya Kayovo, unyamo wa 2014
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PORTUGUÊS: QUAL É O SIGNIFICADO DO NOME MUMBEPYA?

Amigos, saudações!

Já lá vai um bom tempo desde a última abordagem sobre a nossa tradição oral, pelo campo das parábolas e provérbios que subjazem em cada nome.

No passado sábado, fomos à vila do Cubal, cumprindo, assim, o dever de nos solidarizarmos com um tio nosso, como é já sabido que, para os Ovimbundu, o óbito só está encerrado para lá tiver marcado presença. Numa das conversas, o ancião explicou sobre o seu nome: “Meu nome é Mumbepya” [aglutinação de “mumba” + “epya”]. O sentido do provérbio é: posso é ficar sem lavra, mas não fico de barriga vazia.

Um dos presentes replicou da seguinte maneira: “Não será este um nome para preguiçoso?” O ancião soltou um sorriso. “É provável", disse. Outra visão seria a de que, mesmo que a ganância vos impeça de me reservar um pedaço para cultivar, tereis depois a responsabilidade de me sustentar.

Gociante Patissa, 17 Fevereiro 2014

sábado, 15 de fevereiro de 2014

"Ovimunu visombisa vakwesunga"

Numa das conversas, o tio o que julga ser um contraste do mundo actual: "Ovimunu visombisa vakwesunga", ou seja, "Os ladroes julgam os justos".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A "guerra" dos topónimos: finalmente foi dado um passo

Foto: Angop
Autor: Luciano CanhangaO aeroporto do Namibe deixou de se chamar Yuri Gagarin e foi rebaptizado com o nome de Welwitchia Mirabilis. Em rigor, apenas homenageou-se um austríaco em vez dum russo, pois a referida planta que existe no deserto já era designada pelos nativos por ntumbo, tendo sido cadastrada pelo botânico Welwitchia Mirabilis com a designação de Tumboa. Apenas depois da sua morte, e em sua homenagem, a planta rara ganhou o nome actual  (Reginaldo Silva, fb, 13.02.2014).


Apesar de se ter apenas mudado o nome de um russo para um austríaco, tomei nota, com bastante agrado essa evolução no pensamento político-cultural dos governantes angolanos. Chego à conclusão de que, afinal de contas, sempre será possível rebaptizar os topónimos angolanos de origem bantu, atribuídos e registados, muitos de forma errónea e ao acaso,  pelos portugueses. Para os povos bantu, cada substantivo/nome encerra um significado. E mais, o CICIBA (Centro de Investigação das Civilizações Bantu), e mesmo as autoridades angolanas (Resolução 3/87 de 23 de Maio, do Conselho da República) convencionaram alfabetos para as nossas línguas, devendo os topónimos e antropónimos bantu obedecer a estas convenções.

Continuo a considerar que os topónimos angolanos cujos registos não correspondem à redacção correcta, nem ao significado que encerram devem seguir o “caminho do aeroporto do Namibe”, ou seja rebaptizados.

O estudo da Direcção Nacional de Organização do Território, Ministério da Administração do Território, sobre Divisão Política-Administrativa e Toponímia de Angola apenas ganha os meus elogios por ter enumerado e codificado as províncias, os municípios e as comunas do país, sendo necessário também serem “provisoriamente” nomeados, na ausência de um estudo e discussão abrangentes sobre a redacção exacta dos topónimos de origem bantu, obedecendo-se, neste caso, às designações da administração colonial.

Com todo o respeito que me reservam os responsáveis do MAT, com quem tenho uma comunicação aceitável, não me revejo na obrigatoriedade dos media angolanos adoptarem essa redacção colonial como se o “documento em construção”  tivesse força de lei.

Haverá incapacidade, de nossa parte, para se fazer um estudo etimológico dos nomes bantu da nossa toponímia? Reitero. Não aceito que a nossa moeda, de que todos nos orgulhamos, o Kwanza, seja grafado com KW e o rio de quem ganha o nome seja CU.
À semelhança do aeroporto Yuri Gagarin, que passou a chamar-se Welwitchia Mirabilis , espero que as províncias que ladeiam o rio Kwanza sejam grafadas como deve ser ou que a nossa moeda se escreva Cuanza em vez do habitual Kwanza.
Que as capital da Lunda Sul seja Sawlimbo e que a província do sudeste de Angola seja Kwando-Kubango [kwandu kuvangu] e a sua capital Vunonge. Que um dos municípios do Wambu (Huambo) seja Cikala-Colohanga e que a antiga cidade de Silva Porto seja escrita Kwitu-Vye…

Pode ser que o tempo me derrote, mas não custa nada debater e buscar consensos alargados. O país, a sua história e futuro, a todos diz respeito.

RESULTADO DO EXERCÍCIO DE TRADUÇÃO


1º Lugar: Florinda Sikunda, prémio: 1 exemplar do livro Não Tem Pernas o Tempo.
2º Lugar: David Calivala, prémio: 1 exemplar do livro Não Tem Pernas o Tempo, ou Consulado do Vazio, se preferir.
3º Lugar: Tatiana Cristina, prémio 1 exemplar do livro Consulado do Vazio.

"Ongeva onjivaluko/ omunu lokimbo lyavo/ nda likasi ocipãlã/onjongole yokutyukila (...) Ongeva onjivaluko/ omunu l'u valisole/ nda valitepatepa/ onjongole yokulisanga (...) Ame ndakucipopya siti/ kolela/ ovita ndopo vipwa/ Tulisanga a Ngeve (...) ka lupukile/ wasala".

Saudade é recordação/ cada um com a sua terra/ se fica distante/ o desejo é regressar (...) Saudade é recordação/ cada um com a sua pessoa amada / se estão separados/ o desejo é reencontrá-la (...) Eu te disse/ para teres coragem / que a guerra em breve acabaria/ Havemos de nos encontrar (...) Quem não correu/ ficou".

Queiram entrar em contacto com "sua excelência eu" para receberem o que é vosso por direito. A língua conta convosco para não morrer atrofiada, por falta de uso.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Um passeio pela margem do rio Kupolôlô, Dombe-Grande, hoje

O rio, em Umbundu e demais línguas e dialectos da região, até mesmo para as etnias Vakwisi e Vakwandu, chama-see Kupolôlô/ com as vogais das três últimas sílabas abertas. Não é nem nunca será "coporólo, como se teima em mantê-lo registado."

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Debatendo sobre a fábula do jacaré que fugiu da chuva

Fiquei na dúvida sobre a moral de uma fábula, ou ao menos do essencial que me foi contado, se a atitude do personagem é para ser vista pela positiva ou pela negativa.

A narrativa é atribuída ao escritor Uanhenga Xitu (cujo pseudónimo seria a conversão para a língua Kimbundu de um adágio Umbundu, qualquer coisa como “wayenga ositu olonyi vyukwãyi”, ou seja, aquele que prepara a carne é seguido por moscas).

Havia uma assembleia de animais, com representatividade de todas as espécies. Devia ser grande a despesa, estou mesmo a imaginar, tendo em conta a logística que geralmente caracteriza grandes encontros, muitas vezes, como cantou certa vez um amigo, gastando nos comes e bebes muito mais do que o necessário para resolver o problema analisado. Bom, eu já é que estou a aumentar. O outro contou apenas que o encontro levava umas boas horas de conversa (nunca faltando uns que ressonam, já cientes de que só por milagre lhes seria concedida a palavra). Aí, discussão maus discussão, começa a chover. Chuva mesmo de gotas de um litro, o quase, impondo dispersão.

Cada animal saiu dali a correr para o conforto do seu pequeno mundo, aquilo a que os biólogos chamam de habitat, quase sempre acolhidos por generosas árvores ou arbustos, não esquecendo os das tocas e cavernas. Tudo isso, para escapar da chuva, não molhar. O jacaré também, aliás no mesmo instante que os demais, foi a correr para o rio.

Voltando à dúvida. O jacaré teria sido movido por solidariedade, ou seria a negação si mesmo, para assumir identidade alheia, nessa busca de status? Vamos ao debate.

"Owima/ owima/ ocimboto caminga ekaya/ hati/ Mburity/ sipise ko". (Carlos Burity)

"É azar/ é azar/ o sapo pediu-me tabaco/ disse/ ó Burity/ deixa-me fumar um pouco do teu cigarro"

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"A nossa dança sempre foi sensual, e ela, hoje, é sexual." - Abel Dueré

Nova Gazeta:Acha que angola está a perder as raízes culturais?

Abel Dueré (à esq.): Totalmente! Por um lado, há jovens que preservam a cultura, o tradicional a todo custo, mas existe uma atenção muito maior de um tipo de música que de certa forma não é a da nossa sanzala, mas é a do guetto, que é influência americana e brasileira. O próprio Ku-duro está a virar funk brasileiro. Lembro-me da maneira como se dançava e hoje já vejo as pessoas a passar a mão nos órgãos genitais. Isso não é angolano, mas sim dos outros. A nossa dança sempre foi sensual, e ela, hoje, é sexual.

Jornal Nova Gazeta, edição Nº 83, 30 Janeiro 2014, pág. 30

Foto ilustrativa apenas (reporta um encontro na praça Tereza Batista, Salvador da Bahia, durante a 6ª Bienal de Jovens Criadores da CPLP)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

ORATURA: RUÍDOS QUE SE PERPETUAM NO TEMA "SAKATINDI" DO CANCIONEIRO OVIMBUNDU, GRUPO ETNOLINGUÍSTICO ANGOLANO DE ORIGEM BANTU


Enquanto vinha para o serviço esta manhã, servia-me de companhia a emissão matinal da Rádio Mais. Entre um tema e outro, surge a voz de Diabick, o nosso lobitanga que se encontra adoentado em Luanda. A música "Ene a manu" adopta também a animação "Sakatindi", do cancioneiro Ovimbundu, grupo etnolinguístico angolano de origem Bantu.

Sakatindi é uma dança tradicional com toques sensuais, umbigada, mais ou menos como na dança rebita, onde os integrantes da roda a dado momento se encontram aos pares (homem/mulher). A palavra Sakatindi, não me ocorrendo por enquanto sinónimo, diria que funciona um pouco como interjeição. Mas por que carga d'água venho agora com esta ladainha?

Ora, há uma passagem da canção que sempre me soou a ruído. E todos os artistas que adoptam a canção, e olha que não são poucos, caem no "erro" de pronunciar "ukãyi wanjepele, ukãyi wanjepele, ulume ocitende". Traduzindo, "a mulher da Isabel, a mulher da Isabel, o marido é parvo". Não faz muito sentido, já que Njepele é Isabel em Umbundu. Foi daí que certo dia interpelei meu avô paterno e xará, que disse tratar-se de uma degeneração de uma máxima Umbundu. O certo seria "ukãyi ka endi epenle, ukãyi ka endi epenle, ulume ocitende", que em português corresponde a "se a mulher sofre nudez, se a mulher carece de roupa, é porque o marido é parvo".

Eis então a letra e tradução livre para o português:

Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)
Onguya yange ndasile posamwã (Deixei fora a minha agulha)
yokutunga olonanga (de coser panos/tecidos)

ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ukãyi ka endi epenle (se a mulher não tem roupa)
ulume ocitende (é porque o homem é parvo)
ulume ocitende ongandu yuñwatele (já que é parvo, que o jacaré o ataque)
Sakatindi! Sakatindi! Sakatindi!

Esta é a versão de meu avô Manuel Patissa, que me parece muito mais perto de fazer sentido. Se você tiver outra, não hesite em partilhar.

Gociante Patissa, aeroporto da Catumbela, 11de Maio de 2011

Ovisungo vyutundasimbu kUmbundu (do cancioneiro popular Umbundu)

"Ufeko ndalota, lomenle ndomõlã"
Alguém arrisca na tradução?

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Ao cuidado do Exmo Sr. Ministro da Administração do Território

Kanjala - pequena fome
Canjala - relacionado à fome; propriedade da fome.
Ou seja, o nome de cada localidade conta uma história. Graças ao novo registo do MAT que visa ressuscitar a corruptela colonial, acabar-se-á com a memória da toponímia.

Para mais um debate politicamente incorrecto

Q1: Se temos um país que é um conjunto de nações, o tal mosaico etnolinguístico e cultural, de onde é que tiramos a ideia de que o semba é a bandeira musical angolana?
 
Hipótese: "A capital geográfica do poder é também o centro dos padrões" (autor desconhecido). Nesta óptica, se a capital angolana estivesse no Leste, muito provavelmente seria o ciyanda a música/dança com maior investimento oficial e visibilidade.

Um olhar para lá do exótico: a dança, quase sempre associada à canção e ritmo peculiares está, na maioria das etnias africanas bantu e pré-bantu, associada à vivência dos povos, desde a celebração da caça, combate ou colheita sazonal, à súplica aos deuses. Naturalmente, tendo em conta que cada povo vive conforme a sua idiossincrasia, o semba poderá não significar rigorosamente nada, excepto algo que deve merecer o respeito pela cultura "do outro", vá lá, para outros povos do território angolano.