À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
EM BENGUELA: Tabacaria Grilo, edifício do Mercado Municipal, rés-do-chão. EM LUANDA: Livraria Lello, Livraria Mensagem, Livraria do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, sala de embarque. Pode também comprar na sede da União dos Escritores Angolano, Largo das Escolas, nas imdediações do Largo das Heroínas. O autor agradece!

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

sábado, 30 de agosto de 2014

Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba weya"

"Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba weya" (cantarolar Umbundu) - se estiveres a pisar (transformar bagos de milho em fuba, ou farinha), põe-te já a recolher. O dono da rocha em que trituras chegou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"Kaliye, volonembele, utima pongalo."

"hoje em dia, nas igrejas, o coração só está no balaio" (tudo gira em torno da arrecadação de dinheiro)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

E...

Agora o simples domínio da língua portuguesa passa a ser condição para se adquirir a nacionalidade angolana? Ainda não li a lei, nem estudei Direito, mas parece que assim fica cada vez mais difícil sermos "nós mesmos".

domingo, 24 de agosto de 2014

Diário: "POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI"

"POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI" - (é quando estamos a chegar ao destino que o peso que transportamos parece mais pesado ainda)

Palavras de um proverbial Umbundu do meu pai, num distante dia em que carregávamos lado a lado (já não recordo bem com quem) uma grade de bebidas a pé, idos da praça da Kalumba. É a sensação que me atravessa, quando parece estar cada vez mais perto o salto a que me propus e conquistei (pela única forma que sei, juntando forças e ideias) no sentido de juntar prazer ao ganha-pão. Está-se próximo da meta, que parece cada vez mais distante.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Diário: SEGREDO DESFEITO

O conto MINHA MÃE É HORTELÃ, pág. 15, que abre o meu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, que vem a público no final deste ano, é uma ficção baseada numa trama real por mim testemunhada na adolescência. Só estes dois parágrafos são reais:

«O Sô Padre ainda não tinha percebido o que se passava na fazenda dele. Queria livrar depressa a cabeça do susto pelo boi que por pouco não morreu. O boi, também ainda ninguém sabia porquê, caíra para dentro da cacimba. A sorte é que esta estava seca. E o Sô Padre, que até era homem de muitas letras e de grossa inteligência, não conhecia a arte de socorrer um boi assustado. Então aprendeu o quê nas escolas, se na fazenda não rende nada, só dá ordens? Graças aos analfabetos que se safou. Nós, os piós, disparatávamos por dentro esses homens que não percebiam que criança gosta de carne. Que custava deixar o boi morrer?!

Mas isso tinha sido de manhã e o problema já estava resolvido. Até o tal boi já só coxeava bocadinho. O problema agora era o Kanjaya. Esse Kanjaya, eu até não sei quem lhe manda refilar muito quando não tem forças, acabou por levar uma boa tareia (…) Só que o Kanjaya também não se deixou ficar assim. Apanhado ali mesmo com as mangas na mão, Ndulu foi desafiado a comer cocó de boi. Acho que ia ser o primeiro na família, porque cocó de boi nunca foi coisa de ir à boca. Se era salgado, se era amargo, ou se mesmo cuiava, primo Ndulu ainda não sabia. Comer ele não queria, negar também não podia. Era só vexação mesmo o que o mafiador alugado pelo Kanjaya queria para se vingar. Dizia-se que ele podia matar e não saía nada. Que tinha breve. Que só um soco dele podia arrancar alguns dentes e deixar a boca como baliza de futebol.»

Como não podia tratar o personagem pelo nome real do primo, inventei “Ndulu”. O segredo agora já não faz sentido, pois o primo Raul Kafundanga, do bairro Nossa Senhora da Graça, em Benguela, partiu hoje, por doença. Vai amanhã a enterrar. Lala po ciwa, a upalume wange! (Dorme bem, ó primo meu!)

Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

ORATURA: "Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

"Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

Este trecho do cancioneiro popular Umbundu é de uma dança folclórica em roda de mãos dadas, girando aos pulos num sentido, que logo é invertido mediante o sentido da canção, quando se disser "twendainda ndeti" (que significa: o normal é procedermos assim). Conforme explicado pelo Duo Canhoto, compilador da rapsódia intitulada "Omboyo", que ganhou maior visibilidade depois de a cantora Pérola lhe dar uma roupagem mais comercial, a essência da parábola resume-se no seguinte: 

Numa comunidade em guerra, os paradigmas funcionam de maneira inversa, ou seja, literalmente, os cabritos (animais domésticos) na lavra, as palancas (animais da selva) na aldeia. Trata-se, portanto, de mais uma manifestação dos nossos antepassados contra a desordem que é inerente a lutas e conflitos. 
Ovilamo! (Saudações!)
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ocisungo - cântico

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lokimbo lyaye (a cada um a sua terra)
nda likasi ocipãla (se está longe)
ojongole yokutyukila (o desejo é regressar)
eh mama we (oh mãe)

Zé Katchiungo, trecho do tema em Umbundu intitulado "Ngeve". Tradução nossa

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Olombangulo

«Nós muitas vezes acusamos “o outro” de nos ter colonizado. Portanto, o nosso discurso quase sempre faz referência à colonização portuguesa, mas nós nos esquecemos do “colonialismo” de nós próprios. Hoje há mais repressão aos curandeiros do que no tempo dos portugueses. Hoje, há mais assimilação da cultura do “outro” do que no tempo de Portugal. A libertação nacional ou a libertação espiritual é um processo que deve continuar.» - Paulina Chiziane, escritora moçambicana ao programa A Páginas Tantas, canal TVM de Macau, disponível no Youtube

domingo, 27 de julho de 2014

Ocilongwa

in «Não Tem Pernas o Tempo» (novela), União dos Escritores Angolanos, Luanda, Angola, 2013.

Ovilongwa

"Eci cakala osimbu, polonambi pali uloño volombangulo. Kaliye, volupale, omãlã vainda ponenle, vakaimba ovikanda. Cisapeliwa ka vacilete, pwãi cimwe ndaño eci calya omunu ka vaci.
(Tentativa de tradução do Umbundu: No nosso tempo, antigamente, colhia-se sabedoria nas conversas de um óbito. Hoje, nas cidades, os mais novos isolam-se para jogar cartas (sueca), não seguem o que se conversa, às vezes mal chegam a saber a causa da morte) - Alfredo Gociante, tio meu materno

sábado, 26 de julho de 2014

"Omanu vaindela posi, ene olomoto wuvivolisa"

Pelos becos do bairro benguelense que cada vez mais se vê tentado a desistir do sonho alcatroado, o ancião deu um instintivo salto para escapar, iminente que se fazia o atropelamento por esses triciclos motorizados com carroçaria, conhecidos como kaleluya. "Omanu vaindela posi, ene olomoto wuvivolisa", reagiu com repulsa o ancião, a quem aborrecia menos o risco de atropelamento nos becos do seu próprio bairro do que aquilo que via na carroçaria: uma moto delop empoeirada, com ares de degradação por falta de uso, muito provavelmente a caminho de ser descartada. "As pessoas andam a pé, e vocês entregam as motorizadas ao apodrecimento".

domingo, 20 de julho de 2014

Acaba de sair mais um ensaio sobre tradição Oral Umbundu. Leia no JORNAL CULTURA nº 61, de 21 de Jul a 3 de Ago, pág. 9.

Oratura: ACEITAMOS «OKUPOKIWA» EM DIAS DE CARÊNCIA?


Em outubro de 2005, visitei zonas recônditas no Sambo, comuna do município da Cikala Colohanga, no Huambo. Fiz parte do grupo de pesquisadores a grupos focais ao serviço da inglesa «Save the Children». Os alvos eram crianças órfãs e vulneráveis na Ombala de Ciyaya, capital tradicional de cinco aldeolas de refugiados provenientes da Zâmbia, cerca de oito quilómetros da comuna de Samboto. A povoação ressentia-se do fim da assistência do Programa Alimentar Mundial, agência humanitária da ONU.

Mesmo que o código de conduta da «Save» não proibisse gratificações de ordem material daqueles aldeões que ensaiavam a readaptação, finda a guerra que um dia os afugentou, o quadro crítico de penúria dizia bem que nada tinham para oferecer. Para se ter ideia, ainda aos nove anos, várias crianças andavam na produção de carvão vegetal para sustentar pais e avós, muitos dos quais dependentes de aguardente artesanal.

A recolha de dados ficou concluída com êxito em uma semana, conforme o plano. O que, entretanto, não esteve previsto foi a tensa conversa com o Soba grande da Ombala na hora da despedida. Fazia questão de nos regalar com duas galinhas, dois quilos de feijão e alguma batata-doce. E agora, o que havíamos de fazer? Receber, ou não?

Uma comissão reuniu-se no cantinho, tendo como interlocutora a mais-velha do grupo. Primeiro, era-nos enorme a empatia pelo sofrimento, não fazendo grande sentido despenderem do já tão pouco. Segundo, o código de conduta proibia-nos, pois não estávamos ali em visita, mas a trabalhar sob pagamento. O Soba, que sabia ao mesmo tempo ser cordato mas intransigente, considerou de improcedente a nossa visão. Não é «nosso», sublinhava, terminar uma visita sem «okupokiwa», símbolo de hospitalidade!

Como o leitor terá já percebido, cá estamos com mais um estudo, outra vivência para abordarmos aspectos da tradição oral do grupo etnolinguístico Ovimbundu. O verbo «okupoka» (regalar) ou «okupokiwa» (ser regalado) refere-se a bens alimentares para a boa hospitalidade, genericamente servidos como refeição, donde se destacam a «ocisangwa» (bebida feita à base de farinha ou rolão de milho, conhecida pelo seu aportuguesado quissângua) e a galinha. A norma do bom acolhimento assenta no adágio de que «ukombe elende; ndopo yaco lipita» (o visitante é nuvem; passa logo).

Quanto às regras de confecção, é certo que cada grupo entre os Bantu do território de Angola tem particularidades próprias. No essencial, a galinha é guisada e servida com todas as partes que a integram, reservando-se ao visitante a primazia de abrir a mesa e escolher das porções que bem entender. Não devem faltar o coração, as tripas, as coxas, as patas, as asas, a moela e por fim o rabinho. Dado o risco de o visitante levar à risca o direito que lhe cabe, e daí apossar-se da tigela inteira, outras iguarias não tão especiais complementam a ementa para os anfitriões, tais como o feijão e as verduras. Daí que esta praxe exija dos anfitriões uma preparação das crianças, por não ser propriamente frequente para consumo o abate de animais de criação.

Julgo não estar muito longe da verdade se afirmar que os Ovimbundu levam muito mesmo a mal qualquer gesto passível de ser interpretado como desprezo ou colocar alguém na condição de mendigo. É óbvio que nem tudo é linear. A vida na cidade é cara, aliás bem eloquente é o aforismo: «ohombo yilya opapelo, omunu olya olombongo» (cabrito come papel, pessoa come dinheiro). Tal não é, porém, a herança ancestral de povo camponês, criador de gado e caçador, como dá a entender a máxima «casupa oco catenlã» (se sobrar, é porque satisfez), ou ainda «nda cipwa, cipwe; ocipa ha nanga ko» (se gastar, que gaste; pele de animal não é tecido de algodão).

Tão sagrada é a boa hospitalidade que, ainda hoje, é quase uma questão de arte o papel de bom visitante lá onde os anfitriões estejam conglomerados por laços familiares ou de forte afinidade. Como se desenvencilharia o caro leitor se cinco lares, na razão de uma galinha por cada, lhe fizessem chegar à mesa o prato? Ora, o segredo está em comer um bocado de cada lar. De outro modo, fica a mágoa de quem vir a comida rejeitada.

Regressemos, pois, ao dilema do Soba grande de uma aldeia de refugiados em extrema carência mas que exigia que aceitássemos a oferta de bom hospitaleiro. Ora, entre a ética positiva de base ocidental e a costumeira africana, onde os anciãos são por vocação uma entidade, tivemos de arranjar um meio-termo. Não era prudente afrontar uma autoridade tradicional, quando se iria caminhar cerca de dez quilómetros em mata cerrada. Foi então que juntamos o que sobrou da nossa logística, se bem me lembro uma lata de leite, grade de gasosa, uns cinco quilos arroz, massa, óleo alimentar, sal, sabão, peixe seco, entre outros, que não ficaria por menos dez mil kwanzas.

Para terminar a reflexão de hoje, diríamos que «okupoka» é um gesto simbólico de boa hospitalidade, geralmente ligado a géneros alimentares, que tanto podem ser consumidos durante a estadia, ou levados como lembrança.
Gociante Patissa, Luanda, 12 Julho 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Oratura: O CÂNTICO DE KAPALANDANDA E A DÚVIDA DA MINHA ADOLESCÊNCIA

É frequente ouvir-se a referência ao “tempo de caprandanda” (grafia errada, pois não temos “R” em Umbundu e o “C” tem pronúncia diferente de “K”). Quando foi e o que houve?

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga, uma alguns anos depois da outra. Como as deslocações de pessoas e bens eram mediante as guias de marcha, “trabalhei” também como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política. Evidentemente, havia familiares que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, rádio da Unita, com o volume baixinho. Foi assim que certo dia retive um trecho dolente do cancioneiro Umbundu num gingle: “Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila/ walilila ofeka yaye” (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi e chorou porquê? GP

NOTA DO BLOGUE OMBEMBWA: Segue-se, com pequena adaptação, o contributo de Carlos Duarte, in «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Abril/Maio 2014:

“Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro.

Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.” 

domingo, 13 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Diário: E SE JUNTÁSSEMOS DIVULGAÇÃO CULTURAL À HONESTIDADE?

Venho notando com satisfação o cada vez mais crescente interesse pela partilha de sabedoria popular nas línguas nacionais de origem africana. É de louvar, principalmente quando se trata de murais de gente mais nova, se tivermos em conta a conotação de que a maior tendência nas redes sociais recai para futilidades. Só me deixa aborrecido notar que quanto à língua Umbundu, não poucas vezes, algumas almas mais não fazem do que ir copiar dizeres aos meus blogue www.ombembwa.blogspot.com e mural do facebook, para colarem em seus murais ao pé da letra. Na minha ingenuidade, acredito que a sabedoria popular é património imaterial colectivo, de qualquer um que por ele tenha a mínima sensibilidade, mas que a tradução é de cunho pessoal. E essa preguiça só pode multiplicar eventuais erros do tradutor "imitado", até porque a Internet não pesquisa, não avalia, não escreve e... não erra. Divulgar a nossa língua e cultura, sim, mas com o mínimo esforço de honestidade intelectual.

Gociante Patissa, 3 Julho 2014

Do amigo Efraim, em Umbundu, via SMS:

"Uteke uwa,Suku tate akulave kwenda akusumunlwise.Ndeci a sumunlwisa Yovi." (Tenha uma boa noite, que Deus pai o cuide e abençoe. Tal como abençoou Job)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Kulya, eh, walya/ a fumbelo/ waliminlã ongamba/ okwambatelako elye/ ókulu?"

"Kulya, eh, walya/ a fumbelo/ waliminlã ongamba/ okwambatelako elye/ ókulu?" (trecho de um canto de resistência do cancioneiro Umbundu) - comer, oh, comeu/ o latifundiário foi avarento para com o servo/ quem te há-de carregar os haveres/ ó velho?

"Sipiseko ka mãli ekwanyu; ve yamãle ka mãli umbumba"

"Sipiseko ka mãli ekwanyu; ve yamãle ka mãli umbumba". (Adágio Umbundu) - 'empresta-me o teu cigarro' não sacia a ânsia de fumar; marido alheio não preenche os vazios de solteira.

sábado, 28 de junho de 2014

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR! - A convite do Semanário Angolense, na pessoa do seu director, contribuí com um artigo na edição que assinala os 800 anos da língua portuguesa

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.
Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “a língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais”.

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

"Kwati ocimunu!/ Agarrem o ladrão!"

"Vandivanja lolombweti/ pala okundiveta / mekonda lya yuna/ ndayongwile"

TRECHO DA CANÇÃO DE CESAR KANGWE, DÉCADA DE 1980
"Vandivanja lolombweti/ pala okundiveta / mekonda lya yuna/ ndayongwile"

Ver tradução dos meus amigos via Facebook nos comentários

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não deixe de ler na 59ª edição do Jornal Cultura, de 23/06/14, o ensaio Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU


Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.

sábado, 21 de junho de 2014

Ovilongwa kelimi/oviholo lyUmbundu: «ONGANYO YALILE KAPOKO» - Lendas da língua/cultura Umbundu: (o biscate tirou vida a Kapoko)

Umbundu

Olonjanja vyalwa tusyata okuyeva akuti «onganyo yalile Kapoko». Onganyo pwãi nye? Pwãi yolya ndati? Kapoko pwãi elye? Ndomo twacikulihã, olonduko vikwete esinumwinlõ. Omo lyaco, ya Kapoko yatyamenlã kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa ndondaka, yikwete esinlã kelimi lyoputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo ka kwete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.

Ndomo ciyevala tunde kosyãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako ka kwatele. Pwãi cenda ovina, ongusu vo ka yokambelele, walikapa okwendisa upange wocinyangu, nda kokulimila, nda kokututa ovitele ale ovikwata.

Eteke limwe, umwe fumbelo watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata. Vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:

- A Kapoko, twasukila alume oco vambate etumba kwalangalo vukulu wendamba. Sandako vali umwe ukwacinyangu.
Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco, ocimbele ndalisoka laco. Ka cisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ño nda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.

Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopya, momo acitenlã.

Vaenda mwenle ciwa, pwãi okupitinlã kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño ka citundi. Pwãi vokwenda, ocivimbi cayeya calwa, ovate veya okukoka okuti letimba lya Kapoko leli lya civimbi vyalilamelenlã. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omõla wosiwe ati:
- Lalimwe eteke. Tate ka la kwata ofuka… ka kendiwa lepute. Mba kacitava!

Valete mwenle yo kutekanvã. Okwiya mba vati pwãi tê okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãlã, otukuiwa vo ati eye Kapoko.
Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamihõ, vonganyo omo mutunda omwenyõ, pwãi pamwe vo luveyi haimo.

Português

É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:
- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.
Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.

Após os acertos, a família concordou: se o disse, é porque consegue. A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servia de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.

- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!
Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.
A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

"Olombongo vikola, vyakanjupile kumãi/ avoyo/ avoyo weh/ olombongo vikola"

"Olombongo vikola, vyakanjupile kumãi/ avoyo/ avoyo weh/ olombongo vikola"

É uma canção dolente, revolta pela impotência humana perante a obrigação de trabalhar para sobreviver. "O dinheiro tem poder, trouxe-me [da paz] da casa da minha mãe [para sofrer], oh, oh, o dinheiro tem poder"

segunda-feira, 16 de junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

ombambi

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU

Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na língua Umbundu, representando 1/3 da população estatísticas avulsas e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos em Kavaya[1] (2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2] (2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social, o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial. Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas: Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila, palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe (Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores, acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior distraído o interromper.
Eis algumas passagens de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes, outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale, omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se, enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa, kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de Junho de 2014



[1] KAVAYA, M. 2006. EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda,/ Benguela, ANGOLA. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
[2] ARJAGO. 2002. OS SOBAS: Apontamentos Étno-linguísticos Sobre os Ovimbundu de Benguela. Edição do autor.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"NDA OMÕLÃ OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio Umbundu)

"NDA OMÕLÃ OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio Umbundu) - Se a criança chora por uma navalha, dá-lha. [Quando se ferir, terá sido por ela mesma]

Explicação: Se o orgulho impede a pessoa de ouvir conselhos, há que deixá-la com as suas escolhas. O arrependimento vem mais tarde com as consequências.

sábado, 31 de maio de 2014

Mais uma razão para se repensar no que (não) fazemos em termos institucionais para a valorização das nossas línguas nacionais

Segundo o jornalista Reginaldo Silva, "Mais projecções do INE sobre o estado da população angolana referentes a 2012..."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

(arquivo) Ruído na comunicação: WANDA É COM “U” OU COM “V”?

Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina. 
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:
"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.

Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.

Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.
 Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012

recordando um indignado adágio umbundu com o meu pai: "POWIÑI WAKUTO, NDA KA PAKAVI AVA VAFINYA, PAKAVA AVA VAFEMBULA"

"Powiñi wakuto, nda ka pakavi ava vafinya, pakava ava vafembula"
(no grupo dos que usufruem aos excessos a fartura, se não se cansam os que peidam, cansam-se os que têm de abanar com a mão o nariz torcido para minimizar o fedor).