À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

sábado, 18 de julho de 2015

Oratura | "MANGOLÉ" OU "MWANGOLÉ", EIS A QUESTÃO

Por Kamuatata Kyami Kasule, in Jornal A Capital, Luanda, 18.07.15)
"Mangolé de sucesso”. Muitos angolanos deparam-se não poucas vezes com a expressão que invade as residências dos cidadãos por intermédio de um canal de televisão por satélite. 

A expressão chama atenção, pois é apresentada em letras garrafais, apelando os feitos dos angolanos um pouco espalhados pelo mundo, sob apresentação da simpática Angélica Costa. Porém, a razão deste artigo é justamente analisar, segundo a língua kimbundu, claro, caso o termo seja realmente retirado desta língua banthu, o que merecerá uma curta análise. 

Ora vejamos: Se “Mangolé” subentende angolano para a realização do programa, então há uma gralha de concordância e estrutura morfológica da frase na língua kimbundu, visto que a designação apropriada na língua em questão usa-se o prefixo "Mukwa” para formação dos vários adjectivos e substantivos. Exemplo: Mukwa Ngola (originário ou natural de Angola). 

Outrossim, há um termo ou prefixo comumente usado como forma de indicar origem, proprietário ou naturalidade, resultante da forma curta de “Mukwa”, na qual toma a forma curta de “ Mwa”. Exemplo: Mwazanga (ilhéu, natural da ilha) - forma do singular Akwazanga (ilhéus, naturais da ilha) - forma do plural Mwangola ou mwangole (angolano, originário de Angola)- forma do singular Akwbangola (angolanos, originários de Angola)- forma do plural Akwa Kisama (naturais da Kisama) Akwa Uíje (naturais do Uíje) Akwa Malanje (malanjinos ou naturais) Portanto, se o programa é trazer os angolanos naturais, deveria sim trazer também a forma correcta dos naturais de Angola. 


Assim sendo, não é aceitável e nem deve ser considerada tal expressão, pois não transmite nada na língua kimbundu, ao menos que seja uma gíria unicamente falada por quem nunca balbuciou a língua em análise.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Resenha literária | DAS BREVES IMPRESSÕES: FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS

Por Cristina Galhardo Amado(Benguela 12 Julho 2013)

Neste livro, o autor, Gociante Patissa, traz-nos catorze textos, apresentados na contracapa como sendo “contos”. Esta tipologia está, sem dúvida, presente em alguns textos, embora vários destes se enquadrem muito mais no sub-género crónica literária. É neste último, sobremaneira, que se notam pontadas de linguagem que se aproxima da jornalística, em apontamentos que auxiliam o leitor (se desnecessariamente ou não, cabe a vós também julgar) a se situar.

Em parte significativa dos textos, o tal “auxílio” ao leitor cede lugar ao enigmático, ao que fica pairando no ar, que vai além da eventual falta de habilidade do leitor, nomeadamente por não dominar a semiótica que permite interpretar não somente literatura, mas tudo na vida. Talvez seja a influência sugerida pelo próprio autor (narrador também, no presente exemplo) no texto “Velho Batalha e a Bicicleta que Não Sabia Correr”, dessa cultura em cuja linguagem “quase tudo é por atalhos, servido na bandeja da metáfora, do fragmentado, da inferência” (p.91). O autor transporta, desta forma, para seus textos essa característica das máximas Umbundu, que têm por norma não oferecer interpretação imediata, fácil ou única ao interlocutor.

No âmbito das que, para mim, se aproximam mais de crónicas, destaco, pelo impacto emocional, “Sapalo e a Avenida do Quase”. Sapalo personifica os tantos que, quem como eu caminha, encontramos nas ruas, perdidos em suas deambulações, nas avenidas “do quase, do sonho por rápidas melhoras, da dor” (p. 84). Em certos momentos, no seguimento do que foi dito acerca do pendor enigmático da narrativa, é endereçado ao leitor um claro convite à interpretação, como sucede particularmente n’”O Calendário da Viúva”, em que o agente se debate com o que classifica como conversa desconexa de Saluquinha, curiosa personagem. Como sugeriu António Lobo Antunes, quem somos nós para dizer que outros são loucos?

Ainda numa tipologia similar, “A Estrela que Não Voltei a Ter” é particularmente tocante, mesclando a crueza não restrita à vida humana e a poesia de quem não esquece o que nos foi arrancado da e na meninice.

Quanto aos que considero contos propriamente ditos, os convites às reflexões e conclusões do leitor estão bem presentes, iniciando logo com o texto que abre o conjunto, o belo “A Minha Mãe é Hortelã”. O conto que dá nome ao livro traz-nos uma personagem que, pela extensão e complexidade de caracterização, parece pedir (logo ele, que também foi biografista) uma narrativa mais extensa.

O último texto, “A Árvore que Dava Leite”, me parece algo desgarrado do conjunto. Sendo um conto de pendor tradicional (como ocorre com “No Reino dos Rascunhos”), é narrado de forma completamente distinta dos anteriores, em que é notória a presença e interferência do narrador, que nos interpela, nos interroga e partilha suas impressões.

O livro, editado pelo GRECIMA [programa «Ler Angola». Luanda, 2014], pode ser encontrado no Kero [rede de mercados]. Boa leitura!

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Omboyo

domingo, 31 de maio de 2015

"A Situação dos Direitos do Autor" em mesa-redonda na Rádio Mais Lobito

Num espaço de 55 minutos conduzido pelo radialista Zacarias Capoco, o representante da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC), Chico Sandro, o professor David Calivala e o escritor Gociante Patissa abordaram a situação dos direitos do autor, tendo como pano de fundo a entrada em vigor da Lei 15/14, de 31 de Julho, da Protecção dos Direitos de Autor e Conexos nas áreas das Artes, Literatura, Ciência. A mesa-redonda foi da iniciativa da Rádio Mais, na cidade do Lobito, no sábado, dia 30.05.15

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Oratura | Sumi ou "Sumé", um monte que tem tudo para ser enigmático

Sou dos que têm preferido uma postura contemplativa quanto aos acontecimentos de 17 de Abril no monte Sumi (ou será Sumé?), município da Kahala, província do Wambu, desde logo pela nebulosidade que paira sobre o que realmente se passou no confronto entre as forças da ordem e os fiéis da Igreja de Kalupeteka (também não uso a palavra seita, considerando haver tantas e várias denominações religiosas na mesma condição de aguardarem por um posicionamento do Ministério da Cultura, em causa a requisição de legalização). Dados oficiais quantificam nove agentes policiais assassinados e 13 civis da outra parte. Sou também dos que deploram a violência e seus efeitos colaterais, o que independe de quem a pratique, esperando que a justiça cumpra o seu papel . Posto isto, vou para o que nos traz hoje. O nome do monte que foi palco da tragédia vem surgindo na imprensa, à boa maneira angolana no que respeita à toponímia. Ora Sumi, ora Sumé. É a velha questão do desleixo de uma sociedade e a arbitrariedade oficial quando se trata de nomes e ou substantivos nas línguas africanas, onde o proverbial e a parábola são ignorados. Partindo de novo por um exercício de especulação, na hipótese de ser uma palavra na língua Umbundu, exclui-se a possibilidade de ser Sumé por dois motivos: (a) são raras, se é que existem, as palavras com terminações silábicas tónicas e (b) não se vislumbra para já uma imagem que se possa associar à palavra "sumé" como sendo o seu significado. Depois de ouvir várias fontes, algumas das quais com raízes naquela região, parece evidente que seria Sumi, o modo imperativo do verbo “okusuma” (adivinhar), pronunciado de maneira silabada [su-mi]. Aqui chegados, até parece que o nome do monte foi profecia concebida para os tempos de hoje, pois, meus amigos, não havendo relatos de testemunhas oculares sobre o que realmente se passou... “Sumi!”, quer dizer, adivinhem!
Gociante Patissa, Benguela 21.05.15

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Trecho de um hino evangélico na língua umbundu

«Si ka ivale ko
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle

kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ofela
noke yaloluka»

TENTATIVA DE TRADUÇÃO

Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã

De tarde não se viu
com o sol murchou
o vento bateu
e ela ruiu.

sábado, 2 de maio de 2015

Exercício de tradução | Tente, pois pode ganhar um livro

Eunciado: são duas estrofes de uma canção festiva Umbundu que marcou a nossa infância e adolescência enquanto plateia do rico encontro cultural para brincar na quadra festiva, praxe da comunidade oriunda do município do Mbalombo, residente no bairro da Santa Cruz, Lobito.
"Ndaile kolonganyo
Kofeka yoviNgangela
Kuli olohamwe
Vilumana nda alimbondwe.

A Suswana
Ku lile vali
Ame syendi vali
Ñala olotembo vyosi."


Nota: As três melhores tentativas de tradução serão recompensadas com um exemplar do livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, contos com que Gociante Patissa procura homenagear o bairro Santa Cruz, que lhe deu as agruras para amadurecer e as felicidades para o necessário equilíbrio humano. Tente, que você é capaz.
Ngundji José ''Fui a procura do pão
em terra dos Ngangelas
há mosquitos
que mordem quanto abelhas

Óh Suzana 
não chores mais,
que não irei mais
O Senhor é o dono dos tempos''.

A sekulu ame nda seka andi po naito Gociante Patissa

·          
THáciio Uãnda Fui trabalhar 
Na terra dos Nganguela
Tem mosquito 
que mordem como as abelhas

Oh Suzana 
não chores mais 
eu Já não vou mais 
ficarei o tempo todo

·          
Adolfo Chaiqua Fui no trabalho no pai's "terra"dos NGanguela, tem mosquitos mordem como bichos. OH Suzana nao chora mais, eu nao vou mais ficarei todo tempo.
·          
Gociante Patissa "Wasema waimba" (o desafinado também cantou), Ngundji José.
·          
Gociante Patissa Yayevala (bem recebido), Adolfo Chaiqua
·          
Gociante Patissa Olavoka ka kavi (a paciência é uma virtude), THáciio Uãnda
·          
Ngundji José Mba mba, a sekulu!
·          
THáciio Uãnda E que tal a classificação kota?
·          
Gociante Patissa O provérbio em que te citei responde a tua pergunta, THáciio Uãnda: a paciência é uma virtude.
·          
Gociante Patissa Twakuyeva (bem anotado), Vhadu Khorreia
·          
THáciio Uãnda Está bem farei isso
·          
Vhadu Khorreia Fui trabalhar na terra dos nganguela, Tem muitos mosquitos, Mordem tipo abelha, Suzana Não chora, Eu não vou mais, Estarei todo tempo aqui.
·          
Toni Franco Eu fui ao trabalho- na terra dos Nganguelas - tem muitos mosquitos - mordem que nem véspras - Suzana não chores mais - sinta-se a vontade para sempre.
·          
Gociante Patissa Yapitinlã (chegou a mensagem), 

Na terra dos Nganguela
Há mosquitos
Ferram como vespas
Oh Suzana
Não chores mais
Eu já não vou mais
Fico contigo para sempre.

·          
Higino Cataca Hcataca Fui trabalhar
Na terra dos ngangela
Há mosquitos
Que ferram como como abelhas

Suzana não chore mais
Já não volto ao trabalho
Ficarei para sempre!


Victorino Luciano Balundo Sikunda Divel fui ao trabalho ou negocio,nas terras dos nganguelas,tem mosquitos que mordem como vespa ,ó suzana ,não chores mais,fica tranquila ,eu não voltarei,,ficarei aque para todo tempo ou para sempre. ovilamo!!! vlbs

Chave da prova de tradução (hahaha)

UMBUNDU
"Ndaile kolonganyo
Kofeka yoviNgangela
Kuli olohamwe
Vilumana nda alimbondwe.
A Suswana
Ku lile vali
Ame syendi vali
Ñala olotembo vyosi."


PORTUGUÊS
Fui à procura de trabalho
Em terras dos Ngangela
Há lá mosquitos
Que ferram como vespas

Não chores mais
Ó Suzana
Que eu já lá não vou
Vim para ficar.
…………………….

PARECER

Teve 3 (três) falhas, sendo a primeira onde traduz «alimbondwe» como sendo abelhas (quando na verdade se trata do plural de vespa, pois abelha é “olunyihi”). A segunda falha, que tem muito mais que ver com a regra na língua portuguesa do que propriamente com o Umbundu, consiste em atribuir ao mosquito a faculdade de “morder”, quando o coitado, tal como a vespa a que é comparada, não vai além de ferrar. A última está no verbo onde se confunde “Ñala” (de “ndi kala”) com Ñalã (Deus).


Teve 2 (duas) falhas ao traduzir «alimbondwe» como sendo abelhas (quando na verdade se se trata do plural de vespa, pois abelha é “olunyihi”). A segunda falha, que tem muito mais que ver com a regra na língua portuguesa do que propriamente com o Umbundu, consiste em atribuir ao mosquito a faculdade de “morder”, quando o coitado, tal como a vespa a que é comparada, não vai além de ferrar.


fez um grande esforço, mas ficou-se atrás de todos, pois não encontrou o vocábulo correspondente a “alimbondwe”, que seriam vespas. E não foi desta que o improviso salvou a jornada, pois soa a tautologia dizer que “tem mosquitos mordem como bichos”, já que o mosquito, se é que fosse capaz de morder, fá-lo-ia como bicho mesmo, o que por acaso é.


Teve duas falhas só. Uma é fazer o mosquito “morder” como vespas, quando na verdade tanto um como a outra nasceram para ferrar. A segunda falha está no último verso, onde traduz “Ñala olotembo vyosi” como sendo “sinta-se a vontade para sempre”, quando devia ser “Vim para ficar”, ou fico por cá para sempre”, por exemplo


A meu ver, 0 (zero) falhas.


Teve 1 (uma) falha só ao traduzir «alimbondwe» como sendo abelhas (quando na verdade se trata do plural de vespa, pois abelha é “olunyihi”).


Teve 1 (uma) falha só, que é fazer o mosquito “morder” como vespas, quando até tanto um como a outra nasceram para ferrar.


RESULTADOS
1.º Lugar para Venâncio, que não teve falha a assinalar.
2.º Lugar para Higino, que teve uma falha só.
3.º Lugar para Victorino, que teve uma falha só.



Detalhes para a entrega do prémio serão acertados em mensagem privada. Os três classificados receberão exemplar do livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, contos com que Gociante Patissa procura homenagear o bairro Santa Cruz, que lhe deu as agruras para amadurecer e as felicidades para o necessário equilíbrio humano. Tente, que você é capaz.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Sabino Henda okwete cimwe caposoka ocisikilo cokaliye (Sabino Henda com novo e belo tema musical)

"Utima wuvala/ utima wuvala, vakwê/ ongeva yivala/ olila, osukoka/ oliteyateya" (Dói-lhe o coração / Oh, vejam como lhe o coração / Dói-lhe a saudade / chora, aos soluços/ está no chão a espernear) -
tradução livre de uma nova e muito bela música na língua Umbundu que o compositor Sabino Henda (à esquerda na foto) acaba de mostrar no programa Janela Aberta, da TPA. Waposoka! (Parabéns)

sábado, 14 de março de 2015

Publicado livro de reflexão sobre as línguas nacionais

Texto e foto de Jornal de Angola, 14.03.15
“Estão as línguas nacionais em perigo?” é o título do livro de cariz académica de autoria dos escritores José Pedro (angolano), Bento Sitoe (moçambicano) e Cristina Severo (brasileira) lançado na Biblioteca Nacional, em Luanda.

Em declarações à imprensa, à margem do lançamento da obra, o secretário de Estado da Cultura, Cornélio Caley, afirmou que é um livro importante para despertar a sociedade sobre a necessidade de dar mais atenção às línguas maternas.

Um dos autores da obra, José Pedro, disse que o livro é uma reflexão em torno da situação actual das línguas em cada país, sendo que cada um dos participantes descreve a situação linguística de cada território e as suas experiências.

O também director-geral do Instituto de Línguas Nacionais disse que na realidade de Angola, as línguas nacionais não correm qualquer perigo, na medida em que a Constituição da República salvaguarda, valoriza e dignifica as línguas angolanas. “Uma língua só deixa de existir quando desaparecem os seus falantes”, afirmou.

O escritor moçambicano garantiu que situação idêntica se regista no seu país, tendo em conta que há um movimento em direcção à valorização das línguas nacionais.

“Os riscos que elas correm não são de extinção, mas sim de permanecerem numa situação subalterna, se nós não tivermos o cuidado de criar condições de as  manter desenvolvidas”, afirmou Bento Sitoe.

«Epese ha lyo ko, tutukula ño olofa»

«Epese ha lyo ko, tutukula ño olofa.» - Já nem adianta falar dos prejuízos, basta citar as mortes (Viñi-Viñi, trecho na língua Umbundu da música dolente A Morte de Um Herói, 1985)

Salvaguardada a diferença referente aos contextos, o trecho ora citado encaixa-se muito bem para ilustrar o quadro das cheias do Lobito. «Epese ha lyo ko, tutukula ño olofa.» - Já nem adianta falar dos bens perdidos, basta lamentar as mortes.


E para citar ainda outro trecho da mesma canção, «Já não consigo falar / já não consigo falar.»

segunda-feira, 9 de março de 2015

Do arquivo, o meu artigo de opinião que saiu no jornal português, «PÚBLICO»

O Português tem de dialogar!

Ensaio | TALVEZ UMA DISCUSSÃO À PARTE

(O presente artigo foi apresentado na conferência sobre «O Português e a Sua Origem Latina Como Língua de Universalidade, Versus as Línguas Naturais de Angola», organizada pela Casa de Angola em Lisboa, Portugal, a 03/12/14)

Inicio estas linhas sem saber, à partida, que género de texto adoptar. Ao contrário do que carinhosamente se espera, desta vez não trago à tertúlia nada assim de sistemático, tal é o momento de particular desmoralização, quer enquanto estudioso, quer enquanto patriota. O melhor talvez fosse nem sequer vir. Entretanto, fala mais alto o adágio Umbundu, minha língua materna, segundo o qual "Wakukavonga wakuvela uloño; nda ka kusawila, okuliminlã". Traduzido, daria em qualquer coisa como «Quem te chama põe à prova a tua inteligência; ou algo tem a te informar, ou a te oferecer».

Falar do “Português e a sua Origem Latina como Língua de Universalidade, Versus as Línguas Naturais de Angola” é outra boa oportunidade para a partilha de saberes e pensares, mas, diante da tendência cada vez mais sólida, cá dentro, de subalternização das nossas línguas (africanas, Bantu e pré-Bantu), questiono-me se vale a pena investir no debate fora de portas em prol do respeito pela herança identitária, quando a caravana da discussão esbarra, cada vez mais afónica, na surdez institucional.

O paradoxo mais recente é apregoar a inserção das línguas nacionais no currículo de ensino e ao mesmo tempo investir formalmente na corrosão da memória colectiva com a imposição de um padrão de topónimos baseado em corruptelas.

Ao ler notícia sobre um esclarecimento do Exmo. senhor Ministro da Administração do Território (MAT), que na verdade só cuidou de reforçar a nova descoberta do seu pelouro que consiste em castrar as consoantes K, W e Y nos nomes das localidades (mesmo que de matriz africana não ocidental), desautorizando tudo o que de cultural é substracto, só podia eu estar ainda mais desmoralizado com a gestão institucional deste dossier que tanto denota falta de diálogo intersectorial, onde o Ministério da Cultura e o respectivo Instituto de Línguas Nacionais vêem as suas competências ultrapassadas pela direita.

Abro parêntesis para especular morfologicamente. Se fosse na língua Umbundu, o topónimo Kunene (de origem Bantu) seria a aglutinação do prefixo "Ku", que tem o papel de locativo (no, na), com o adjectivo "unene", que significa grande. Assim, arriscaria em dizer que a palavra Kunene (ku+ unene) tem o significado de "na parte maior; na grandeza", o que não sabemos ao certo se homenageia o território ou a bravura da sua gente. De qualquer modo, os falantes de Oshikwanyama têm a palavra. Este “Cunene” oficial não existe no imaginário do povo, não significa mesmo nada.

Por estas e por outras cá em Angola, é ainda comum o uso do termo dialecto para designar as línguas nacionais de origem africana, sejam elas de matriz Bantu ou pré-Bantu, remetendo-as implicitamente ao papel de subalternas da língua portuguesa. Por desconhecimento ou por preconceitos, é ponto assente que tal fenómeno é, mais do que problema linguístico, uma questão social e de políticas de Estado.

Se é inquestionável o avanço científico da língua portuguesa e todas as vantagens que ela representa, também não anda longe de dislate chamar as outras línguas (as da identidade cultural dos indígenas de então) – com estrutura própria, sublinhe-se – de dialectos. Seriam por acaso dialectos relativamente ao português, do qual não originam? Ora, como defende MCCLEARY, Leland[1] (2007: 11), “a sociolinguística não usa a palavra dialecto nesse sentido pejorativo. Para a sociolinguística, dialecto quer dizer, simplesmente, uma variação regional”.

Há quem se apegue ao pedantismo redutor de que em Angola só o português é língua nacional, no sentido restrito de idioma que se estende a todo o território. Isto é bem verdade, tal como não deixa de ser verdade que temos um país constituído por um conjunto de nações, o tal mosaico etno-linguí

stico, havendo pessoas que nascem, crescem, envelhecem e morrem sem lhes fazer a mínima falta a língua oficial.

Em meu entender, para um Estado que só existe desde 1975, e com tudo por fazer no campo sociolinguístico (pois a prioridade até 2002 foi, evidentemente, dada à busca da paz e estabilidade nacional), o mais sensato seria abraçar, estudar, classificar, normatizar. Faria sempre melhor justiça à história. Há que perceber que há uma dimensão de Angola que não cabe em documentos nem na “dicção padrão”.

O português vai bem e recomenda-se, mas também se arrisca a reaver a capa de língua infeliz, enquanto for medida latente para a opressão, ainda que disso não tenha culpa. A caminho de quatro décadas de independência em Angola, não faz muito sentido o recurso à reminiscência das sequelas da alienação colonial e da política do assimilado. A questão já não é o que fizeram de mal às nossas línguas; a questão é o que nós não estamos a fazer de bom a elas, no que nos bastaria imitar a Namíbia e Moçambique.

Gociante Patissa, Benguela, 29 de Novembro de 2014



[1] McCleary, L. (2007). Curso de Licenciatura em Letras-Libras. São Paulo, Brasil: USP.

segunda-feira, 2 de março de 2015

Crónica| Da palavra falada à palavra cantada, o carisma de António Firmino "Tula"

Recebi de oferta o disco de estreia de Antonio Firmino Antonio "Tula", conhecido sobretudo pela sua faceta de locutor de língua Umbundu na Rádio Lobito. O homem completa neste dia 4 de Março mais um ano de vida, contagem que começou em 1977.

A nossa amizade remonta ao ano de 2005, quando nos sentamos na carteira para aprender jornalismo e técnicas de comunicação, no Instituto Camões em Benguela, que albergava o curso básico de quatro meses, promovido pela APHA e respaldado pela Direcção Provincial da Comunicação Social. Na sua terceira temporada, era até então o que de melhor havia (se não mesmo o único) em termos de formação de profissionais do ramo. Residíamos ambos no Lobito e o trajecto era feito na maior parte das vezes em pé de autocarro, destes transportes colectivos e democráticos, que juntam o operário, o funcionário público e a candongueira e respectivos cestos com peixe e hortaliças numa mesma corrida.

Na primeira impressão ao ouvir as músicas do Tula, é impossível dissociar o locutor do cantor, ou não habitassem ambos na mente de um ser comprometido com a valorização da sua cultura através da tradição oral, comprometido com a missão de inverter a tendência decadente da conduta social, enfim, um mensageiro. É nas faixas 08 e 12 que me parece termos o ponto mais alto da criação, onde ritmo, harmonia, colocação de vozes e relevância do conteúdo batem no mesmo compasso.

Como quem parte em viagem para explorar novos sonhos e caminhos, olhemos para este primeiro CD como se fosse um percurso de ida, vai faltar o regresso, que é a parte mais confortável da viagem. Sim, o amigo Firmino Tula, com essa estreia, acaba de franquear as portas para um desafio ingente. A persistência, a capacidade de ouvir e permitir-se à auto-crítica, entre outros valores do fazer artístico, é que vão determinar se vinga no ramo da música ou se se vai dar por satisfeito com uma única experiência.

Para terminar, se me permite a brincadeira, gostaria de discordar do título, segundo o qual - cito - «a minha vida mudou». Não, a tua vida está intrinsecamente ligada à vida do teu povo, das suas aspirações e da luta pela preservação e divulgação cultural. Logo, se neste campo ainda não há mudanças encorajadoras, a tua vida também não pode, ó activista social, ter mudado. O caminho é para frente, e vamos a isso. Estou contigo.

Gociante Patissa, Benguela, 2 Março 2015

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Ensaio| Oratura: «Sulunla» e o carácter sociopolítico de uma canção



«Sulunla» é título de um tema do cancioneiro do grupo etnolinguístico ovimbundu, que se pode dizer que ganhou mais visibilidade com a roupagem no estilo sungura dada por Bessa Teixeira, natural do Huambo. Não deixa de ser bela a versão mais branda do benguelense Fedy (autor de «Kalupeteka»), mas é em Bessa que se evidencia, no ritmo dançante e no espírito, uma maior proximidade à essência.

Com Bessa Teixeira, o tema foi tão-somente a joia da primeira edição do álbum (colecção nascida na pirataria) «Sucessos do Huambo», em 2003. Naquele mesmo ano, foi o segundo mais votado do Top dos Mais Queridos, concurso anual da Rádio Nacional de Angola, edição ganha por Patrícia Faria, a ex-integrante do grupo «As Gingas», conhecida por alguns êxitos do seu disco de estreia, nomeadamente, «Pacheco» e «Caroço Quente».

«Sulunla», daqueles temas bem metafísicos, chegou a ser receita obrigatória em quase tudo o que fosse farra por esta Angola, não importando o desconhecimento da letra – e é aqui que reside o motivo destas linhas. Há uma conjugação bem elaborada entre a voz (projectada um pouco acima do habitual) e o ritmo quente – aqui aliás a vantagem. É um trecho relativamente curto, talvez seja por isso que «sulunla» surge sempre encaixado em rapsódia. Assim o fez Bessa Teixiera, assim o fez Fedy.

Eis o extracto e respectiva tradução livre: «Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali wayiwala/ Ukãi wasoma ka la wala onanga/ Etali wayiwala (…) Sulunla, osõi ku kwete la nãwã/ Ndilisunlunla?/ Sulunla, osõi ku kwete la nãwã!» (A mulher do Soba nunca foi de usar panos/ E hoje está a usar/ A mulher do Soba nunca foi de usar panos/ E hoje está a usar/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter vergonha perante os cunhados!/ Devo despir?/ Tira lá isso, que devias ter vergonha perante os cunhados!)

Em se tratando de um tema satírico sobre a figura do «osoma» ou «soma» (rei), que teria dado origem à corruptela «Soba», torna-se relevante levantar alguns aspectos de ordem antropológica e sociológica, para uma melhor compreensão do papel das canções interventivas. Seria uma canção nascida«pesenje» (na pedra), «poloñoma» (nas batucadas), ou no «ocipata» (o quarto do velório)? Entre os ovimbundu, pelo menos falando dos de Benguela para não perdemos o foco, existem estes três cenários para punição comunitária de condutas e defeitos por via da canção, não havendo por vezes, digamos assim, a noção ocidental de vida privada.

Assim, temos: (a) «na pedra», onde as mulheres passam o dia transformando bagos de milho em fuba com ajuda de «upi», triturador de madeira acotovelado, que marca o compasso ao coral improvisado e quase perfeito; (b) ao contrário da pedra, que é marcadamente uma arena feminina,no batuque oñoma», em Umbundu) é inquestionável a superioridade masculina em torno da figura mítica «ocinganji» (também chamada de palhaço), para quem se toca o melhor possível do ritmo dos tambores, não havendo cuidados quanto ao uso da linguagem. Um outro cenário é (c) no «ocipata», o quarto em que estiver assentado o cadáver antes do funeral, o qual depois se transforma em palco de machos e umas poucas mulheres, até o varrer de cinzas. Nesse ritual, também não há temperos na linguagem, daí o acesso restrito.

Considerando que a educação tradicional desencoraja a mulher de verbalizar abertamente a sexualidade e/ou afronta às autoridades, e ainda porque não há como planificar as actuações no «ocipata», uma vez dependerem da ocorrência de mortes, tomamos como válida a tese do velho PATISSA, Manuel (1916- 2008), segundo a qual «sulunla» – cujo significado é «despe-te» – encaixa-se no repertório do «ocinganji». No entender da nossa fonte, a origem da canção reside num repúdio à corrupção das autoridades tradicionais africanas, aquando da invasão do regime colonialista português.

É em Arjago que encontramos evidência ainda mais precisa:

“A partir da década de 40 assistimos a institucionalização de regedorias por todo o país com uniformes brancos e bandeiras erguidas nas suas residências. Para tal era preciso pactuar com o regime colonial. Perante a situação, os Sobas dividiram-se: uns a favor, outros contra o colonialismo, dependentemente das capacidades que tinham de resistir ou de sobreviver. Os Regedores reconhecidos pelo regime colonial passam a ordenado de 1.500$00, o suficiente para comprar 3 cabeças de gado por mês e vestir todas as esposas” (Arjago 2002, p.60).

Concluindo, diríamos que não obstante a euforia que o tema hoje transmite, «Sulunla» nasceu da mágoa social e é indicador da perda de legitimidade que grassou entre as autoridades africanas. Naquele contexto, a ostentação de vestes ocidentais pela mulher do Soba, a par de desvio de identidade, foi considerada um acto de corrupção material.

Gociante Patissa, Benguela 13 de Setembro de 2012

Bibliografia

 Arjago. (2002). Os Sobas - Apontamentos étno-histórico sobre os ovimbundu de Benguela. Benguela: edição do autor.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Crónica| O pasteleiro do jeep preto

Foto: Jornal Cultura
São cinco agentes, um sentado, quatro em pé. Contemplativos, olhares incertos na direcção acinzentada da montanha.

Poucas horas faltam para encerrar o dia, o ano. Grande evento para quase todos, presença obrigatória para um chefe de família. Eles é que com as suas casas não podem nem sonhar, são polícias da unidade aeroportuária e estão (como sempre foi e será) em prevenção permanente. Relaxar não podem, pois há uma aviadora com voo nocturno agendado.

São 16h10. Passageiros começam a chegar para o check in, vem com isso a chatice do ordenamento do parque de estacionamento. São três minutos na zona gratuita, quase sempre violados e vertidos em multa, que sai sempre mais cara do que os 200 kwanzas cobrados por hora no parque. Pára um jeep preto.

O utente, cuja característica se encaixa no modelo executivo, caminha na direcção dos agentes. Tem cara de quem, muito bem colocado na esteira das influências, pretende antecipar, em tom de dar a conhecer, que vai exceder os três minutos e ninguém se meta com ele. Boa tarde, saúda ele, para o coro cortês dos agentes. Vocês é que estão de serviço hoje? A resposta é afirmativa. Olha, tenho algo no carro, venham ver. E dois polícias são surpreendidos com uma caixa de bolo-rei e outras guloseimas. É uma prenda nossa. O benfeitor, que não se identifica, sobe no carro e parte, não sem antes levar com o coro de gratidão dos agentes.

O observador, que sorri de satisfação ante o desinteressado gesto, diz baixinho... Assim, sim, ó senhor João, da pastelaria Áurea! Mais do que o lucro, o gesto! Mas não se fica por aí, pois as boas acções têm esse poder de nos transportar para gratas memórias e nos devolvem a esperança de não perder a esperança no que de mais profundo há no ser humano.

Até há pouco menos de 15 anos, ainda se via nas principais cidades do litoral de Benguela o saudável "assalto" à meia-noite com o “Mbeta-mbeta”, cantares a batucadas improvisadas, jornada que se prolongava até ao final do dia. O Natal, ainda mais o Ano Novo, faziam renascer o reencontro, a reafirmação da socialização e indirectamente a capacitação para a vida do ponto de vista antropológico, havendo a realçar a casa como ponto de partida da partilha.

"Twapandula ciwa/ weh/ etali ulima wapwa" (Estamos bem agradecidos/ eh/ hoje termina o ano) - trecho de gratidão no contexto de "se-se", um ritual popular Umbundu (com escalões de crianças, de homens e de mulheres), que consiste em andar de porta à porta cantando e dançando em celebração da passagem de ano. O anfitrião corresponde regalando bens alimentares, os quais serão consumidos em piquenique no dia seguinte.

Quando o coro é respondido com avareza, a sanção é por via do canto também: "Ove ku kwete cimwe/ weh/ nye watungila onjo?" (Se dizes nada ter, por que é que construíste a casa?) "Ha njala ko/ tucipangela onatale/ ha njala ko/ tucipangela ombowanu” (não é questão de fome/ cumprimos apenas a praxe de natal/ não é questão de fome/ cumprimos apenas a praxe de bom ano).

Boas entradas e que 2015 seja então um ano de hospitalidade.


Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Katombela, 31.12.2014