À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
EM BENGUELA: Tabacaria Grilo, edifício do Mercado Municipal, rés-do-chão. EM LUANDA: Livraria Lello, Livraria Mensagem, Livraria do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, sala de embarque. Pode também comprar na sede da União dos Escritores Angolano, Largo das Escolas, nas imdediações do Largo das Heroínas. O autor agradece!

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Na voz de antigo ministro da educação| AINDA A DISSONÂNCIA DA NOVA GRAFIA DOS TOPÓNIMOS

O País: "Antes escrevia-se Kwanza-Sul e a gora exigem que seja cuanza sul. Têm mais razão os que escrevem com K ou com C?"

Dario de Melo: "Os que escrevem com K são capazes de ter mais razão. O K era um sinal de rompimento com a realidade portuguesa, como istória sem H, é um sinal de rompimento com a estrutura gráfica portuguesa. Portanto, suponho que nem um nem outro têm razão. Ainda que me custe um pouco, porque p Kuduro é que tem razão. O kuduro é com K."

in jornal O País. Luanda, 17.10.14

sábado, 18 de outubro de 2014

O bolo da licenciatura da manucha Arminda Gociante Patissa que de Kanjala passou a «Canjala», por imposição da estúpida e casmurra compatriota em serviço na Identificação quando teve de renovar do BI no ano passado

Kanjala [kanja:la]- pequena fome
Canjala [Tanja:la]- relacionado à fome; propriedade da fome.

Ou seja, o nome de cada localidade conta uma história. Graças ao novo registo do MAT que visa ressuscitar a corruptela colonial, acabar-se-á com o que haveria de memória colectiva na toponímia. Está aberto o precedente: investigar para quê, se vale a força da auto-negação? Shame on you, ó Terra minha!

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

UTUNGA WEKAYA (A idade do tabaco)

- UMBUNDU
"A mãi, eci handi, okusipa, nda capwa. Eci okuka."

"So, eci ndotava, ndisipa ale."
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- TRADUÇÃO
"Ó mãe, é já altura de deixares de fumar. Estás a caminhar para a velhice."
"O teu pai, quando o aceitei, já eu fumava."

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Oco, oco, o kwenje! (Assim, sim, rapaz!)

Na sua canção intitulada «Okucita Kuvala» (que na língua Umbundu equivale a não é fácil ser mãe), Auxílio Morais, que ficou em segundo lugar da classificação na gala final do 'Benguela, Gentes e Músicas' (27/09), retratou a mulher, no seu papel de mãe batalhadora e de poucas posses, que faz da sua tenacidade no campo, no negócio precário, enfim, o sustento da sociedade, combinando a força de vontade e a fé cristã. Para dar ênfase à actuação, AM recorreu à indumentária típica da personagem a descrever, exibindo mesmo uma bíblia em palco, um exemplo da transversalidade do teatro nas artes. E mais, AM é um exemplo de que não basta cantar em línguas nacionais, mas há que fazê-lo bem, com algum sentido de pesquisa, profundidade e correcção. Assim, sim, rapaz!

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Nota solta

“É sabido que as línguas africanas, as línguas Bantu, sempre foram ágrafas, ou seja, não tinham representação escrita, mas mesmo assim, houve sempre a figura do professor, a formação informal no onjango” (de um convidado ao programa Janela Berta, TPA, há pouquinho)

O lugar do que é nosso na representação cultural

«UKONGO», que em Umbundu significa o caçador, é uma dança do folclore do grupo étnico Ovimbundu, que visa, por um lado, enaltecer a figura do valente ser que alimenta a comunidade arriscando a sua vida e, por outro, evocar aos deuses para mais êxito e paz dos espíritos. Esteve muito bem representado o conceito enquanto dança, mensagem e ritmo pelo candidato Martinho Kangala que trouxe uma compilação de adágios e aforismos na canção «Olila» (em Umbundu, está a chorar) ao concurso 'Benguela, Gentes de Músicas', da Rádio Benguela, que teve lugar a 27 de Setembro no Cine Kalunga.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

(Do arquivo) crónica |UM ENCONTRO CASUAL AO ALMOÇO

Foto: Webshots
No Lobito, contam-se aos dedos os restaurantes que sobreviveram à segunda república. O calar das armas e a transição para a abertura do mercado abalaram economias e hábitos de consumo. De sorte que, quando a paz não mais precisar da guerra para se auto-definir, os humanos ter-se-ão transcendido a si próprios, digo eu.
As cidades são árvores que mantêm a essência enterrada, enquanto galhos, folhas e frutos vão e vêm. O centro do Lobito resume-se a duas ruas, a de entrada e a de saída, entre o bairro da Caponte e a Zona Comercial. Só depois da Colina da Saudade se cruzam para o Compão, a sul, à procura do bom pescado da Kabaia, ou para a ponta da Restinga, a norte, onde a cidade se liberta na língua da praia, em geral para tirar proveito da escuridão que o lugar regala aos casais.
O Gunga-Bar (cujo nome provém do Umbundu "ongunga", sino) fica na rua de saída, resistindo a quaisquer infortúnios, sendo um deles, o mais pesaroso, a morte do proprietário por acidente rodoviário, há coisa de três anos. Guardo na memória a cena da moça que tiramos do sono, às duas da manhã, em finais da década de 90 do século vinte, para nos servir bebidas, numa breve fuga aos preços da discoteca ali perto. O restaurante prestava-se ao desafio de servir vinte e quatro horas por dia, muitas vezes à luz de poucas velas entre uma falha e outra da energia geral, não dispondo de uma simples fonte alternativa.
Tem rosto moderno mediano, o que só pode ter contribuído para maior fluxo de clientes. É um restaurante pequeno e fechado, rendido a essas irreverências ocidentais de igualdade entre classes, onde o cliente chega, como qualquer outro, serve a variedade que der, põe o bolso a falar com a balança e ocupa a mesa. Só depois vem o garçon para o que se quer beber.
Estava lá eu a almoçar em tempos. Às tantas, entra um vigoroso septuagenário com duas raparigas, que tanto davam para meretrizes como para netas suas com défice de decência no trajo apenas. Ocupam uma mesa ao fundo, num canto entristecido pelos vidros fumados, onde poisam objectos irrelevantes como sinal de demarcação territorial. Luwawa é um farfalhoso intelectual Bantu, devolvido pela trama da história à sua cidade natal. Bons filhos à casa sempre tornam, os não tão bons também, há quem também o diga, e até mais previsivelmente, diga-se.
Há histórias de vida que revelam fatalidade, quando a personalidade não se dissocia da etimologia do nome atribuído pelos progenitores ou o adoptado do xará. Luwawa, por falar nisso, é uma espécie vegetal odiada pelo seu fedor, o que, entretanto, não justifica que os Ovimbundu torcessem, à partida, o nariz a toda uma espécie humana com tal nome.
Velho Luwawa, de sorrisos largos como o casaco e a gravata, é um acontecimento em pessoa, um poço sem fundo que ninguém quer ter contra si. Talvez fosse por isso que, em se tratando de self-service, foi-lhe dada, e por arrasto às muchachas, uma deferência incomum: serviu, pagou e deixou os três pratos no balcão da balança, para serem pelo pessoal de serviço levados à sua mesa.
Bem, agora vou andando, que conheço ateus, conheço cristãos. Para ambos, é sagrada a hora da refeição.

Gociante Patissa, Aeroporto 17 de Setembro, Benguela, 2 Agosto 2012

Kunene... morfologicamente especulando

Se fosse na língua Umbundu, o topónimo Kunene (de origem Bantu) seria a aglutinação do prefixo "Ku", que tem o papel de locativo (no, na), com o adjectivo "unene", que significa grande. Assim, arriscaria em dizer que a palavra Kunene (ku+unene) tem o significado de "na parte grande; na grandeza", o que não sabemos ao certo se homenageia o território ou a bravura da sua gente. De qualquer modo, os falantes de Oshikwanyama têm a palavra. Até lá, uma coisa é certa: Cunene, com C de cu, não significa mesmo nada! Um abraço do vosso Gociante Patissa, Benguela 03.10.14

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

domingo, 28 de setembro de 2014

Cantor Joaquim Viola Reedita "Tchyungue"

Texto: Jornal de Angola, 27/09/14
O músico Joaquim Viola anunciou, no Lobito, que vai lançar uma versão “mais modernizada” de “Tchiyngue”, que dá o título ao primeiro disco que editou, em 1986. O tema “Tchiyungue” fala da história de dois gémeos (Hossi e Tchiyungue), um rapaz e uma rapariga. Ela humilde e obediente e ele indisciplinado e desleixado. O cantor iniciou a carreira aos 18 anos em 1966, a tocar uma viola com apenas três cordas feita por ele. Actuou pela primeira vez em público em 8 de Dezembro de 1976 por ocasião das festas da Nossa Senhora da Graça. “Tchiyungue” já conheceu mais versões interpretadas, entre outros, por Patrícia Faria e Sabino Henda. Joaquim Viola lançou em 2006 o segundo disco, “Rádio Nacional de Angola”, com 12 temas, dez das quais de sua autoria e as outras, do filho, Paulove.

Divagando| A corruptela como regra

Os nossos compatriotas "geniais" que defendem essa ideia pouco aconselhável de castrar as consoantes K, W e Y dos nomes de localidades de matriz africana, tanto recorrem ao seu "know-how" (que entretanto não grafam /nóu háu/), como fazem "marketing" (que por acaso não grafam /marqueting/). E das vezes que vão ao Kunene (que imaginam /Cunene/), não perdem a chance de visitar Oshikango, Oshakati, podendo mesmo esticar para Windhoek, na República da Namíbia, com quem partilhamos o projecto Okavango Zambeze, mas não aproveitamos para beber da sua experiência no que respeita à preservação de alguns dos mais elementares aspectos da nossa matriz de bantu e pré-bantu, quer sejamos da elite, quer sejamos da plebe. Custa dizer, já que de colonização não há uma melhor que a outra, mas parece que as sequelas de alienação cultural nas ex-colónias portuguesas são bem mais graves do que França e Inglaterra deixaram. Os nomes pessoais e das localidades são geralmente adoptados de rios, montanhas, plantas e animais que, até provas em contrário, já existiam. Ensinar as línguas nacionais e ao mesmo tempo adoptar a degeneração como paradigma de registo só pode ser um "desencontro de esforços" onde claramente sai prejudicada a preservação da memória colectiva. Not a way to go!

"Nda omõlã ka kusumbile, onekulu he pata lyove ko vali"

"Nda omõlã ka kusumbile, onekulu he pata lyove ko vali" (máxima Umbundu) - Se o filho não te respeita, o neto já não é tua família.


Na minha interpretação, o respeito pelos idosos deve ser passado de geração para geração. Se os pais não respeitam os seus próprios pais, os netos ficam ainda mais desligados.

"Si popi ño, vakwê, cimbala..."

"Si popi ño, vakwê, cimbala..." (só nada digo, oh, mas que me dói, dói) - trecho de uma canção em Umbundu de um dos concorrentes do "Benguela Gentes e Músicas"

sábado, 27 de setembro de 2014

«O ‘K’ tem de voltar a ser colocado onde parece que querem retirá-lo» - António Fonseca

Texto e foto: Semanário Angolense, edição 548, Luanda 27/09/14

O desaparecimento do «K» das palavras de origem angolana, so­bretudo no que diz res­peito aos topónimos (nomes pró­prios de localidades), tem gerado muitas discussões. Kwanza Norte, Kwanza Sul e Kuando Kubango, por exemplo, que depois da independência na­cional passaram a ser escritos com «K» em vez do «C» imposto pelo regime colonial português, volta­ram a ser escritos como antes por determinação do Ministério da Administração do Território.

Na opinião de António Fonseca, renomado escritor angolano, numa entrevista concedida ao Semanário Angolense, publicada no essencial na sua última edição, «o ‘K’ tem de voltar a ser colocado ali onde pare­ce que querem retira-lo». «Porquê desapareceu?», questiona o tam­bém economista e professor uni­versitário da Faculdade de Letras da Universidade Agostinho Neto.

No entender do escritor, dian­te dessa polémica, «quem defen­de que tem que escrever com ‘C’, está muito equivocado», já que «se as outras palavras do português mantêm os seus radicais, nós te­mos o direito e o dever de manter os radicais das palavras com ori­gem nas nossas línguas». Aos seus olhos «é claro que (essa palavras) se vão adaptar à norma, mas tem que respeitar a sua história».

Ele não leva em conta o ponto de vista dos que defendem o uso do «C» no lugar do «K», por se tra­tar da Língua Portuguesa e deve ser usada como ela é. Em contra­ponto, António Fonseca replica que «o Português não é uma lín­gua morta; é uma língua viva. En­tão temos que ter a nossa matriz».

Na opinião de António Fonseca, o desaparecimento do «K» nos to­pónimos «é uma espécie de recuo» perante o avanço que foi a procla­mação da Independência Nacio­nal, ocasião em que conquistamos o direito de ser soberanos.

«Digo isto com responsabilida­de própria e pessoal», sublinhou, antes de questionar: «Porque é que vamos querer branquear o nosso português, se o nosso português tem as nossas características ine­gáveis e impossíveis de negar?». Admite que a tentativa de «bran­quear o Português» é preconceitu­osa. «Só pode ser! Não tem outra explicação!», exclama.

E a exclamação de professor é maior ainda quando imagina que o fenómeno da retirada do «K» pode atingir até o nome da moeda nacio­nal. «Vão querer escrever também com ‘C’? Só espero que isso não aconteça, senão, é melhor usar o es­cudo português da antiga colonia», reclamou.

Fechando o capítulo da discussão sobre o uso do «K», António Fonseca foi veemente na réplica conclusiva: «Nós temos que ter, meus senhores, a ambição de reclamar aquilo que é nosso contributo ao imaginário e ao universo da língua portuguesa. Isso não se faz com essas concessões. Não! Tem que ser com ascensões».

Continuando na defesa da sua visão, o escritor explanou: «A escrita decorre de convenções. E quem faz as convenções são os homens. Se esses sinais não exis­tiam na convenção anterior, que as revejam. Porque temos que incorporá-los e os académicos vão ter, mais tarde ou mais cedo, que aceitar isto. Porque, quando nós não fazemos isso, o sentido das palavras perde-se e a mensagem não passa».

Um outro aspecto da língua focado nessa conversa com o es­critor António Fonseca prende-se com a grafia e pronunciação de nomes em línguas nacionais, pois ouve-se grande parte de muitos desses nomes sendo pronunciados de maneira errada em relação ao entendimento que eles pretendem passar, ou o significado que eles têm.
O professor mencionou como exemplo o nome de um seu colega - Vatomene. «Não é Vatomene. É Vatómene. Quer dizer ‘algo de bom’. Se estamos no contexto da Língua Portuguesa, então vamos pôr um acento no ô de Vatomene, que assim o nome dele vai ser pronunciado correctamente. E a mensagem vai passar».

António Fonseca explica que «às vezes é um acento que resolve o pro­blema para indicar que ali se deve pronunciar com acentuação». E cita outros exemplos dessa espécie.
«Temos o João Lusevikueno. Se se escrever só com um S, como ele tendo valor de Z entre duas vogais, o nome será pronunciado de maneira errada. Para que seja pronunciado de maneira certa deve ser escrito com dois SS – Lussevikueno (podem alegrar-se)».

Esclarecendo mais sobre esse assunto, o escritor disse que «nós temos de encontrar um sistema de grafia que conserve os valores cul­turais intrínsecos ao próprio nome - essa é que é a questão!».

E advertiu que «o fundamentalis­mo dum e doutro lado aqui não re­solve», referindo-se aos conservado­res da Língua Portuguesa e os seus semelhantes das línguas nacionais.
Ao fim de quase uma hora de conversa com o nosso interlocu­tor, depois de uma incursão por vários assuntos ligados a cultura angolana eis que António Fonse­ca, um homem falante com muito pra ensinar, ainda deixa um reca­do: «Porque é certo que estamos na época da globalização e o impor­tante é que nós aspiremos a ter um país moderno e próspero mas na nossa condição de angolanos. E isso é feito na nossa condição cul­tural».

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Quando o avanço é para trás

para kú-duro (que advém de cu), usamos a letra K

para kwanza-Sul, bem como para Kwando-Kubango (que provém dos rios Kwanza, Kwandu e Kuvangu) somos obrigados a usar C

NÃO HAVERÁ ALI ALGO A CORRER MAL?

Conto: NÃO É COM AS PERNAS QUE CORREMOS (*)


Numa aldeia muito distante do nosso tempo, no contar do meu avô, havia espaço para tudo, menos para a felicidade de pessoas com deficiência. Acreditava-se que a limitação motora seria praga dos deuses por eventual erro dos ancestrais.

Lumbombo, cujo nome na língua Umbundu quer dizer raiz, na típica essência proverbial dos nomes africanos, era visto como um ser frágil. O próprio nome advinha do facto de nascer doentio, ficando a sua sobrevivência a dever-se a medicações à base de raízes e preces. Em meios rurais, onde são pelo trabalho as pessoas notadas, não era bem o tipo que povoava fantasias. Não se lhe via beleza nem valentia para sustentar uma mulher.

Diz-se que quem nasce com a deficiência tem maior probabilidade de lidar com a baixa auto-estima do que aquele que a adquire depois de ter uma cosmovisão já construída. Na hipótese de ter sido, de facto, assim, Lumbombo não andava por aí a fazer da sua condição uma canção. Para a família, ele nem era assim tão inútil. Passava o dia em casa e cuidava dos animais domésticos, muitas vezes usados como moeda de permuta com produtos da loja do único comerciante, português oriundo do Norte, segundo as más-línguas, sem fundos para a passagem de regresso à Europa.

Romântico inconfesso, Lumbombo não sossegava enquanto não bolasse uma estratégia aparentemente desinteressada de atrair simpatia feminina. Foi então que aprendeu a esculpir pentes de madeira, ciente de ser a vaidade a primeira amiga de uma mulher. Nem foi preciso sequer um ano para o quintal do homem andar apinhado de beldades, perdoem-me aqui algum exagero. Tantas vezes amou, outras foi amado, ainda que às escondidas, dado o preconceito que julgava contagiosa a deficiência. E com as suas poupanças passou o mestre Lumbombo a investir na criação de gado. De frágil a prodigioso, cativava beldades e acumulava bens sem sair do lugar, sem conhecer o caminho da lavra e do rio sequer, já que só se podia mover arrastando-se.

Certo dia, foi um amigo pedir-lhe um boi emprestado para optimizar a sua lavoura. Lumbombo, cordato, conhecido mais pelos seus silêncios do que pelas palavras propriamente ditas, cedeu. Uma semana depois, vinha o recado por terceiras mãos de que o boi havia morrido na lavoura. «Eu, pagar o boi do paralítico? Nunca!», refilava o ajudado. «O que é que pode ele fazer para me agarrar, por acaso vai correr?» A repreensão dos demais aldeãos era automática, tendo em conta que é sobre a honestidade e honradez que se constrói uma nação. Aquele teimava em não ressarcir.

Um ano depois, veio a notícia de grande desalento. Uma lasca de madeira havia adentrado um dos olhos do mestre dos pentes. Ter-se-ia alojado atrás da córnea. Não havendo hospital convencional, cabia aos homens ir soprar-lhe pela boca o olho. Turnos de dois, duas vezes ao dia. E como o trabalho voluntário é, em boa verdade, rotativo e obrigatório, foi o doente consultado se permitia o vigarista soprar-lhe também, ao que anuiu, garantido que nos momentos de doença e morte, a dívida podia esperar.

Chegada a vez, o devedor curvou-se para soprar. E era impecável. Mas quando menos esperava, o doente envolveu-o num grampo de braços pelo pescoço, cortando-lhe assim a respiração, ao ponto soltar gazes. «Daqui só sais com o meu boi de volta!» Os demais ainda tentaram de tudo para arrancar dos braços de Lumbombo o vigarista, não faltando quem derramasse óleo de palma, na vã tentativa de aligeirar a separação. Só horas depois, com a presença do boi, Lumbombo soltou-o. E estava aprendida a lição. Se deve, paga! Não é com as pernas que corremos, é com o pensamento. Como diz o provérbio, «una olevalisa eye onjaki» (aquele que empresta é que é o briguento).

Gociante Patissa, Aeroporto Internacional da Catumbela, 22 Setembro 2014
(*) Adaptação de um curto conto contado pelo meu avô e xará Manuel Patissa

sábado, 20 de setembro de 2014

Ministra da Cultura destaca afirmação do português

Texto- Jornal de Angola (20/09): De acordo com Rosa Cruz e Silva, que presidiu a cerimónia de abertura do III Congresso Internacional de Língua Portuguesa, em Luanda, por essa via, os angolanos tornaram a língua portuguesa mais adequada aos contextos culturais do país.

A língua portuguesa em Angola fez uma trajectória de afirmação do património partilhado, na medida em que desde os primórdios, até ao período mais crítico da sua história, os angolanos transformaram-na na principal arma da luta contra o sistema opressor, afirmou quinta-feira, em Luanda, a ministra da Cultura.

“Nessa medida, a língua portuguesa alcançou estatuto, tal como versa a Constituição angolana. Ela vai merecer melhor tratamento dos estudiosos para que o seu ensino se revele cada vez mais apropriado, bem como o seu conhecimento. Esse exercício deverá ser feito em paralelo com as demais línguas nacionais com que convive e que lhe deram a força que adquiriu hoje”, adiantou.

Rosa Cruz e Silva considera imperioso que se conheçam os principais entraves que se assiste em relação a língua portuguesa para que não se comprometam os objectivos preconizados, nomeadamente na transmissão do conhecimento e dos valores civilizacionais da modernidade. Enquanto meio de comunicação para os mais diversos fins, salientou, não se deve pôr em causa a importância da memorização da língua portuguesa, a par das demais línguas nacionais, que por força dessa luta deverá colocar-se ao mesmo nível de importância e utilização de todos os interlocutores do país.

“Sem qualquer mácula, deve permanecer o diálogo, já que a diversidade linguística do país constitui a sua grande riqueza na validade e diversidade cultural”, frisou.

Na sua intervenção, a ministra da Cultura fez um resumo histórico da importância que os soberanos do Reino do Congo e do Ndongo já atribuíam ao conhecimento e domínio da língua portuguesa, com destaque para Nzinga Nkuvu, Nzinga Yemba (dom Afonso I) e Njinga Mbandi. Estes soberanos, recordou, preocuparam-se com a instalação de escolas em que deveriam, os meninos e meninas do Congo, aprender a ler e a escrever o português.

Noutras circunstâncias, enfatizou, solicitaram a vinda de mestres, professores e missionários, que se encarregaram do ensino da língua portuguesa, multiplicando-se as escolas e enviando-se jovens para os conventos em Lisboa, fazendo assim surgir de forma acelerada os mestres, que continuariam a obra pelos séculos seguintes.

"KOPITULE, OCO WOLALEKELE

"KOPITULE, OCO WOLALEKELE" (adágio Umbundu) - passar por casa de alguém para com este caminhar, é porque houve convite prévio.

TENTATIVA DE ENQUADRAMENTO: A consideração e a confiança, que nos permitem incondicionalmente contar com alguém, cultivam-se.

Salipo ciwa (passem bem)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"CAVONGA KEPYA, KAPULE KIMBO" (adágio Umbundu)

PROPOSTA DE TRADUÇÃO: Ao fraco desempenho na lavra, vá questionar a aldeia.
ENQUADRAMENTO: É à aldeia que vamos buscar a justificação do fraco desempenho na lavra

terça-feira, 16 de setembro de 2014

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE"

"OHOMBO YACITA UTEKE, OCIVALO TUTALA LOMENLE" - (adágio Umbundu) - pariu a cabra de noite, é pela manhã que descortinamos a aparência do filhote).

Enquadramento: geralmente, é um apelo à paciência em caso de dúvida, no sentido de que a verdade vai, mais tarde ou mais cedo, emergir.

domingo, 14 de setembro de 2014

"Ku citenlã, ku cupi ongangu; nda ku teka, sanga otunguka"

"Ku citenlã, ku cupi ongangu; nda ku teka, sanga otunguka" (adágio Umbundu) - Se não sabes, não te ponhas a imitar; se não quebras, ainda deslocas o osso.

ALUPOLO (minha adivinha)

O serão é o momento cultural mais formal entre os ovimbundu. É praticamente um dogma, só de noite é permitido contar estórias e adivinhas. Diz-se mesmo que quem o fizer durante a luz do dia corre o risco de lhe nascerem chifres (nada relacionado com o sentido de traição). Cá por mim, julgo que será uma estratégia de o entretenimento não prejudicar o horário do labor. Alguém então propõe, por exemplo:

"Alupolo!" (minha adivinha!)
"Wiye!" (Venha!)
"Nditãi kesinya, ndinyanyomõlã alensu." (Encontro-me na outra margem a abanar lenços.)
"Ina yukwene, nda enda epenle, ku koyole." (Se a mãe de outrem está em carência de vestuário, não te rias dela)

E a roda do diálogo gira com tudo o que de metafísico se reveste, vista a tendência de serem os mesmos contos e fábulas cantados, adágios e adivinhas, mas que, entretanto, não perdem o poder de suscitar o mesmo respeito, medo, fantasia e vontade de voltar a ouvir.

Bom domingo a todos, que o meu começou já com a panela de arroz doce queimada ao lume, enquanto escrevia esse bocado aqui.

Ovilamo! (cumprimentos)
Gociante Patissa, Benguela 14.09.2014

sábado, 13 de setembro de 2014

COMO SE "QUEM DE DIREITO" SE IMPORTASSE MINIMAMENTE... Quinto encontro de Línguas Nacionais recomenda a escrita de topónimos de origem africana conforme a regra da grafia Bantu

De acordo com a Angop (11 Setembro), Os 170 delegados ao V encontro de Línguas Nacionais (LN), decorrido em Menongue, no Kwandu Kuvangu, recomendaram quarta-feira a necessidade dos topónimos de origem africana serem escritos de acordo com a grafia bantu estabelecida pelo A.F.I. (Alfabeto Fonético Internacional).

Defendem em comunicado final que as direcções provinciais da Cultura devem aprofundar os estudos investigativos sobre o mapeamento linguístico das suas províncias, com a supervisão do Instituto de Línguas Nacionais, bem como estabelecer uma parceria técnico-científico com instituições nacionais e estrangeiras afins. Do Instituto de Línguas Nacionais espera-se o incremento da cooperação com os utilizadores das línguas nacionais e apelam ao bom senso das instituições superioras, no sentido de inserirem nos seus currículos mais línguas nacionais.

Incrementar e apoiar as publicações em línguas nacionais, criar prémios em línguas nacionais, bem como a necessidade das demais línguas nacionais serem estudadas com a máxima urgência, mereceu igualmente recomendação. Os representantes das 18 províncias do país recomendaram igualmente a recolha da tradição oral a fim de se produzirem textos didácticos.

Pela harmonização, recomendam que as igrejas e as entidades privadas sigam as regras da grafia Bantu, trabalhando em conjunto com o Instituto de Línguas Nacionais para o efeito e solicitem aos governos provinciais para colocarem placas de identificação das localidades, instituições, ruas e outros serviços em línguas locais.

Recomendaram também a criação de condições para a colocação das novas tecnologias de comunicação e informação ao serviço dos estudos sobre as línguas nacionais, assim como solicitam à Televisão Pública de Angola (TPA) o aumento de mais línguas nacionais na sua grelha de programação e mais tempo de emissão.

sábado, 6 de setembro de 2014

Ocisungo vomenle okupasuka...

"Vakwene vayelela/ yelela twende/ kakele kacimbamba/ osala posi/
a humbi-humbi yange/ yelela/ yelela/ twende/ kakele kacimbamba/ osala posi"

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

escritor Gociante Patissa em palestra Mediateca Benguela 04.09.14

Nos festejos do segundo aniversário da Mediateca de Benguela, Gociante Patissa foi convidado a palestrar sobre "A Salvaguarda do Valor Literário" para uma plateia de cerca de 40 directores escolares do município de Benguela. O evento teve lugar na sala de conferências, a 4 de Setembro de 2014 (21 minutos de áudio)

sábado, 30 de agosto de 2014

Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba weya"

"Nda wafulile, nyomõlã; mwenle a kambamba weya" (cantarolar Umbundu) - se estiveres a pisar (transformar bagos de milho em fuba, ou farinha), põe-te já a recolher. O dono da rocha em que trituras chegou.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"Kaliye, volonembele, utima pongalo."

"hoje em dia, nas igrejas, o coração só está no balaio" (tudo gira em torno da arrecadação de dinheiro)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

E...

Agora o simples domínio da língua portuguesa passa a ser condição para se adquirir a nacionalidade angolana? Ainda não li a lei, nem estudei Direito, mas parece que assim fica cada vez mais difícil sermos "nós mesmos".

domingo, 24 de agosto de 2014

Diário: "POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI"

"POKUPITINLÃ OCO OCILEMO CILEMA PO VALI" - (é quando estamos a chegar ao destino que o peso que transportamos parece mais pesado ainda)

Palavras de um proverbial Umbundu do meu pai, num distante dia em que carregávamos lado a lado (já não recordo bem com quem) uma grade de bebidas a pé, idos da praça da Kalumba. É a sensação que me atravessa, quando parece estar cada vez mais perto o salto a que me propus e conquistei (pela única forma que sei, juntando forças e ideias) no sentido de juntar prazer ao ganha-pão. Está-se próximo da meta, que parece cada vez mais distante.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Diário: SEGREDO DESFEITO

O conto MINHA MÃE É HORTELÃ, pág. 15, que abre o meu livro FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS, que vem a público no final deste ano, é uma ficção baseada numa trama real por mim testemunhada na adolescência. Só estes dois parágrafos são reais:

«O Sô Padre ainda não tinha percebido o que se passava na fazenda dele. Queria livrar depressa a cabeça do susto pelo boi que por pouco não morreu. O boi, também ainda ninguém sabia porquê, caíra para dentro da cacimba. A sorte é que esta estava seca. E o Sô Padre, que até era homem de muitas letras e de grossa inteligência, não conhecia a arte de socorrer um boi assustado. Então aprendeu o quê nas escolas, se na fazenda não rende nada, só dá ordens? Graças aos analfabetos que se safou. Nós, os piós, disparatávamos por dentro esses homens que não percebiam que criança gosta de carne. Que custava deixar o boi morrer?!

Mas isso tinha sido de manhã e o problema já estava resolvido. Até o tal boi já só coxeava bocadinho. O problema agora era o Kanjaya. Esse Kanjaya, eu até não sei quem lhe manda refilar muito quando não tem forças, acabou por levar uma boa tareia (…) Só que o Kanjaya também não se deixou ficar assim. Apanhado ali mesmo com as mangas na mão, Ndulu foi desafiado a comer cocó de boi. Acho que ia ser o primeiro na família, porque cocó de boi nunca foi coisa de ir à boca. Se era salgado, se era amargo, ou se mesmo cuiava, primo Ndulu ainda não sabia. Comer ele não queria, negar também não podia. Era só vexação mesmo o que o mafiador alugado pelo Kanjaya queria para se vingar. Dizia-se que ele podia matar e não saía nada. Que tinha breve. Que só um soco dele podia arrancar alguns dentes e deixar a boca como baliza de futebol.»

Como não podia tratar o personagem pelo nome real do primo, inventei “Ndulu”. O segredo agora já não faz sentido, pois o primo Raul Kafundanga, do bairro Nossa Senhora da Graça, em Benguela, partiu hoje, por doença. Vai amanhã a enterrar. Lala po ciwa, a upalume wange! (Dorme bem, ó primo meu!)

Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

ORATURA: "Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

"Olohombo kepya/ kepya/ olomalanga vimbo/ Aci fu/ Aci mbê/ Avoyo/ twendainda ndeti"

Este trecho do cancioneiro popular Umbundu é de uma dança folclórica em roda de mãos dadas, girando aos pulos num sentido, que logo é invertido mediante o sentido da canção, quando se disser "twendainda ndeti" (que significa: o normal é procedermos assim). Conforme explicado pelo Duo Canhoto, compilador da rapsódia intitulada "Omboyo", que ganhou maior visibilidade depois de a cantora Pérola lhe dar uma roupagem mais comercial, a essência da parábola resume-se no seguinte: 

Numa comunidade em guerra, os paradigmas funcionam de maneira inversa, ou seja, literalmente, os cabritos (animais domésticos) na lavra, as palancas (animais da selva) na aldeia. Trata-se, portanto, de mais uma manifestação dos nossos antepassados contra a desordem que é inerente a lutas e conflitos. 
Ovilamo! (Saudações!)
Gociante Patissa, Luanda 22 Agosto 2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Ocisungo - cântico

Ongeva onjivaluko (saudade é recordação)
omunu lokimbo lyaye (a cada um a sua terra)
nda likasi ocipãla (se está longe)
ojongole yokutyukila (o desejo é regressar)
eh mama we (oh mãe)

Zé Katchiungo, trecho do tema em Umbundu intitulado "Ngeve". Tradução nossa

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Olombangulo

«Nós muitas vezes acusamos “o outro” de nos ter colonizado. Portanto, o nosso discurso quase sempre faz referência à colonização portuguesa, mas nós nos esquecemos do “colonialismo” de nós próprios. Hoje há mais repressão aos curandeiros do que no tempo dos portugueses. Hoje, há mais assimilação da cultura do “outro” do que no tempo de Portugal. A libertação nacional ou a libertação espiritual é um processo que deve continuar.» - Paulina Chiziane, escritora moçambicana ao programa A Páginas Tantas, canal TVM de Macau, disponível no Youtube

domingo, 27 de julho de 2014

Ocilongwa

in «Não Tem Pernas o Tempo» (novela), União dos Escritores Angolanos, Luanda, Angola, 2013.

Ovilongwa

"Eci cakala osimbu, polonambi pali uloño volombangulo. Kaliye, volupale, omãlã vainda ponenle, vakaimba ovikanda. Cisapeliwa ka vacilete, pwãi cimwe ndaño eci calya omunu ka vaci.
(Tentativa de tradução do Umbundu: No nosso tempo, antigamente, colhia-se sabedoria nas conversas de um óbito. Hoje, nas cidades, os mais novos isolam-se para jogar cartas (sueca), não seguem o que se conversa, às vezes mal chegam a saber a causa da morte) - Alfredo Gociante, tio meu materno

sábado, 26 de julho de 2014

"Omanu vaindela posi, ene olomoto wuvivolisa"

Pelos becos do bairro benguelense que cada vez mais se vê tentado a desistir do sonho alcatroado, o ancião deu um instintivo salto para escapar, iminente que se fazia o atropelamento por esses triciclos motorizados com carroçaria, conhecidos como kaleluya. "Omanu vaindela posi, ene olomoto wuvivolisa", reagiu com repulsa o ancião, a quem aborrecia menos o risco de atropelamento nos becos do seu próprio bairro do que aquilo que via na carroçaria: uma moto delop empoeirada, com ares de degradação por falta de uso, muito provavelmente a caminho de ser descartada. "As pessoas andam a pé, e vocês entregam as motorizadas ao apodrecimento".