À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
PONTOS DE VENDA: União dos Escritores Angolanos; Rede de Supermercados KERO; Tabacaria GRILO (edifício do Mercado de Benguela); Livraria SUCAM, Benguela; Livrarias LELLO, MENSAGEM e na SALA DE EMBARQUE do AEROPORTO INTERNACIONAL 4 DE FEVEREIRO, Luanda

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Divagações pela tradição oral Umbundu: OLUVALE

Olhando para a morfologia do termo, temos "O" (artigo) mais "luvale" (poligamia), parecendo o fonema estar mais próximo de bigamia, tendo em conta a raiz "val". Na língua Umbundu, o número dois é "vivali". O que se pode reter é que, ao contrário da estrutura na língua portuguesa, em Umbundu não há duas categorias, oluvale é genérico. 

Assim, quando ouvimos dizer que "ngandi okwele oluvale", a única certeza que temos na interpretação é que determinada pessoa tem mais de uma mulher. Caso a curiosidade se desperte, a pergunta seria: "oluvale wakãi vañami" (é poligamia de quantas esposas)? Não nos interessa a perspectiva moral da poligamia, que nos levaria ao velho conflito entre o direito costumeiro (bantu) e o direito positivo (ocidental). 

Por falar nisso, parece que os nossos juristas têm o grande desafio de acabar com a hipocrisia formal, não poucas vezes mediatizada em notas fúnebres: "o malogrado deixa uma viúva e X filhos", quando aos olhos de todo o mundo estão prostradas duas ou mais senhoras enlutadas e com lares devidamente legitimados pelo falecido, família e sociedade. 

A poligamia, independentemente das suas implicações sociais, sobretudo para a vertente de sobrevivência do agregado e/ou herdeiros, é culturalmente direito consagrado ao homem africano Bantu e até pré-Bantu, a exemplo dos Vatwa. No centro Urbano, a sua prática enfrenta também um travão de cariz moral religioso. 

Terminamos com a frase de um ancião, que reage ao pedido de um familiar no sentido de organizar a praxe de ir "legalizar" a sua segunda relação. 
"Etu oluvale ka tuwunyãle; pwãi ka tulombalomba luvali" (nós não somos contra a poligamia; mas não costumamos fazer alambamento por mais de uma vez).
Neste caso, como interpretar a posição do ancião? 

Ovilamo (cumprimentos), Gociante Patissa, kOmbaka, 22.01.15

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Foi uma agradável surpresa ter sido chamado à capa do Jornal Cultura, segunda edição de 2015 (19 Jan - 01 Fev). A matéria é desenvolvida nas páginas 16-17 com assinatura do jornalista Isaquiel Cori, concretamente uma recensão crítica aos livros FÁTUSSENGÓLA, O HOMEM DO RÁDIO QUE ESPALHAVA DÚVIDAS (conjunto de contos de minha autoria), e HUMANUS (poemário de Mbangula Katúmua). A matéria termina com entrevista a ambos os autores


Os escritores Gociante Patissa e M’Bangula Katúmua partilham, ao menos, três coisas: são naturais de Benguela, nasceram no período pós-colonial e a existência de ambos decorreu em grande parte nos dias e anos tumultuosos da guerra de má memória. Os livros “Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas”, do primeiro, e “Humanus”, do segundo, aparecem juntos na colecção Novos Autores, editada pelo Grecima, a par de nove de outros tantos autores.

“Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas” é uma colectânea de 14 contos ambientados em localidades diversas da província de Benguela, do interior ao litoral, que resgatam da memória da infância e adolescência do autor toda uma galeria de personagens e situações marcantes, seja pelo lado do insólito ou dos afectos.

Gociante Patissa na verdade não é um autor de primeira viagem. Publicou em 2008 “Consulado do vazio”, poesia, em 2010 “A última ouvinte”, contos, em 2013 “Não tem pernas o tempo”, novela, e em 2014 “Guardanapo de papel”, poesia.

Trata-se de um autor empenhado em apurar a sua própria voz, notando-se na sua escrita a fuga à facilidade e o evitar dos trilhos há muito batidos. Atente-se ao modo de construção deste parágrafo do conto “Minha mãe é hortelã”, em que além das imagens profundamente originais o leitor pode à vontade inverter a ordem com que as frases se apresentam sem afectar, contudo, a coerência do discurso narrativo: “Ele, que não era de andar por aí a distribuir socos e pontapés, abraçou tal via. Era homem já quase feito, de caroço no mamilo e uma barba que não se lhe podia confundir com simples pêlos de calor do funji. Mesmo a catinga do sovaco dele anunciava os ingredientes prontos para dar bebés. Quem lhe provasse o sabor da surra já não voltava a gozar.”

Retenha-se esta outra preciosidade, a abertura do conto “No reino dos rascunhos”: “O velho estava velho, muito velho, logo doente. Para ser confirmado inerte, só lhe faltava parar o fôlego. Vendo bem, aquilo até podia ter outro nome, respirar é que não era.” Como não há bela sem senão, a escrita de Patissa às vezes denota um excessivo “cuidado” em conformar-se às normas, às regras estabelecidas do “bem falar português”, sacrificando a emergência daquilo que podia ser considerada a sua própria linguagem, escorada nos interstícios mais íntimos do seu substracto cultural benguelense. “Havia um cão no quintal em que em tempos fui morar…” in “A estrela que não voltei a ter”. “… só não tendo o dono do alheio sucedido graças ao gradeamento interior aplicado poucas semanas antes da investida”, in “Gestão de vazios”.

Patissa, note-se, neste mesmo livro demonstra um grande domínio da sócio-culturalidade umbundo, fazendo recurso a palavras e provérbios da região. Autor de imenso potencial criativo, Patissa tem o dom do olhar, da captação das singularidades aparentemente invisíveis e insuspeitas das situações e das personalidades.

O seu conto mais significativo é o que dá título ao livro: “Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas”. É uma narrativa digna de figurar na mais selecta das antologias de literatura angolana. É a biografia de uma personagem tão singular na ficção como na vida. (Aliás, “… a profissão de biografista independente faliu, como hoje vemos”). Fátussengóla, de nome verdadeiro Virgulino Kaendangongo, “que na língua umbundo significa eterno sofredor”, é um personagem da estirpe de um Mestre Tamoda de Uanhenga Xitu, com o qual partilha o estatuto de orador, as poses e o gosto pela mais gratuita verborreia. Fátussengóla ganha imediatamente a simpatia e a compaixão do leitor pela forma soberba como o autor o apresenta, seja descritivamente, seja pelo desdobrar dos diálogos. E o final da estória encerra tanta preciosidade como o tesouro que nele é revelado.

Em causa o ser humano
Humanus, de Mbangula Katúmua, é um conjunto de cinquenta poemas sóbrios, reflexivos, escritos na forma de sonetos, essa maneira tão antiga e clássica de poemar (duas quadras seguidas de dois tercetos). E Katúmua vai tão longe no seu exercício de preciosismo formal que todos os seus poemas, rigorosamente, são rimados. “Das velhas profecias que nos liam outrora / Agora veio um velho cancioneiro hegeliano / Uma espécie de novo cardápio do contra / Que encerra teorias de combate miliciano // O inimigo agora é outro / São os potes de luz / O nosso mastro / É a nossa própria voz // Eis que vos apelo / Gritemos bem alto / Até que nos solte o pêlo // Sobre estas laudas ninguém dança / Nem mesmo no dia em que comemorarmos / A nossa morte sobre a ponta de uma lança”, in “15”.

Os poemas de “Humanus” não devem ser lidos uma única vez. Nem, necessariamente, na ordem proposta pelo autor. A uma primeira leitura o formalismo preciosista e até mesmo academicista dos poemas ressoa a algo decadente, perfeitamente démodé. Mas tão logo nos concentramos mais na leitura damo-nos conta que, afinal, a fórmula rígida adoptada pelo autor contém autênticos vulcões de emoções e sentimentos a respeito do mundo e da vida.

“A noite não chega a tempo / De contar os sonhos das gentes / Enquanto isso, ouvem-se vozes do topo / Para anestesiar os fétidos corpos delirantes // Vozes cansadas, sinfonias de morte / Ruas estreitas, passos apressados / Na paisagem agreste / Sonhos condenados // Na desnuda avenida daqui / Que ferozmente colapsa / Como os discursos do Maquis // Mas, quem ouviu não esqueceu / Os caminhos, a dor que perpassa / As entranhas da pátria, e o dia que nasceu”, in “28”.O sujeito poético em vários poemas de “Humanus” parece desapegado da vida, situando-se numa colina qualquer a partir da qual observa a cena humana. E se fala de coisas que já viveu, recorda outras que poderia ter vivido. No limbo entre o sonho e a realidade, entre o celeste e o terrestre, ele confessa-se: “Suspendo-me nos píncaros dos sonhos / Donde me chega homofóbica melodia / E vejo no meu irmão um marciano”.

Ao contrário do seu coetâneo Gociante Patissa, em que as marcas da sua “benguelensidade” estão em todos os quadrantes dos seus textos (na geografia, na linguagem e na filosofia proverbial e até na temporalidade), o poeta de “Humanus” é um ser dilacerado na sua subjectividade que se dirige ao homem comum, desarvorado do seu lugar e até do seu tempo.

“Ainda que farto de ti, ó ser distante / És o caminho que busco e que sigo / Longe da consumição do inimigo / Contemplo de perto luz reluzente // Nos pés fartos de caminhar / Tenho feridas e bolhas de água / Para de todos saciar essa inócua / Sede de infinito clarear // Caminhantes de uma terra longínqua / Somos todos o húmus desta terra / De ventre esviscerado // Ninguém sabe se quando enterra / Uma sôfrega lágrima inócua / Constrói um destino obliterado”.

ENTREVISTA A GOCIANTE PATISSA E M’BANGULA KATÚMUA: O PAÍS SOB O CRIVO DE JOVENS ESCRITORES

Na sequência da leitura dos respectivos livros, “Fátussengóla, o homem do rádio que lançava dúvidas” e “Humanus”, o jornal Cultura foi à conversa com Gociante Patissa e M’Bangula Katúmua. Ambos falam das suas origens enquanto autores e da assumpção ou não da identidade benguelense. Entre eles é consensual a ideia do peso marcante que a guerra teve nas suas vidas e, de certo modo, partilham um olhar optimista a respeito do futuro do país.

Jornal Cultura - Que circunstâncias, ou pessoas, os despertaram para a escrita?
Gociante Patissa - A literatura é apenas a extensão de uma herança transmitida no convívio familiar, quase sempre alargada, como permite a proximidade africana. Apesar de ter deixado o meio rural aos sete anos, trouxe dali uma riqueza enorme, quer aquela mais proseada, ouvida de contos, fábulas e canções vividas no campo de que fomos arrancados, quer aquela mais fragmentada, vestida de parábolas e provérbios, o que de resto conseguimos resgatar e irrigar na cidade.

Mbangula Katumua
M´Bangula Katúmua - O meu envolvimento com a escrita confunde-se muito com a minha socialização política. Comecei, na verdade, de forma não intencional. Apenas declamava os poemas de Agostinho Neto nas actividades do INAC e OPA. Na altura tinha cerca de 14 anos. Depois continuei na JMPLA e quando fui para a Brigada Jovem de Literatura é que, aos poucos, comecei a ter a real noção do mundo literário. Porém a não intencionalidade do meu envolvimento com a literatura viria a manter-se nos anos seguintes. Ao longo deste meu breve percurso tive a sorte de cruzar com Nuno de Menezes, Raul David. Eles ensinaram-me coisas, cada um a seu jeito. Tenho dificuldade de identificar, com precisão, as circunstâncias que me despertaram para a escrita, porém a minha passagem por estas organizações sociais, particularmente a JMPLA e a Brigada Jovem de Literatura foram fundamentais para a minha forja. Lemos muito dos autores da BJLA, nos livros que Armindo Sardinha, Fernando Andrade, Nando Jordão, Paula Russa, Victor João, Nelo Santos nos davam. Lemos John Bella, Kudijimbi, Limpinho, Frederico Ningi, Costa Andrade, Aires de Almeida Santos, Alda Lara, Agostinho Neto. Seminalmente falando, é daí que viemos...

JC - Identitariamente vocês assumem-se como escritores de Benguela, com tudo o que de simbólico ou positivo isso implica, ou consideram-se mais escritores voltados para o universal, sem um grande apegamento local?

GP - Benguela como tal para mim nada significa. E sinto que não tem o meu papel significado algum para Benguela, no seu conceito mais territorial e administrativo. Na verdade, a literatura, pelo seu lado formal, pouco me diz, se não for um veículo de contributo para o diálogo intercultural. Eu sou um ocimbundu que tem a missão de contribuir para que (parafraseando o escritor espanhol António Colina) não desapareçamos enquanto entes culturais. A universalidade só me interessa se ela me puder ouvir, se ela se reivindicar como encontro de identidades.

MK - Entendo que a literatura deve ser sempre universal mas, como todo o produto social, deve estar histórica e territorialmente localizada. Esforço-me para estar em linha com este entendimento. Não sou um poeta benguelense. Sou um poeta de Benguela. Não nego as minhas origens e influências, apenas acho que a humanidade é rica demais para nós vivermos em redoma. A arte precisa elevar-se, precisa ser e estar além do espaço ou do lugar em que é criada. Não estou a fazer a apologia à desterritorialização do acto criativo, nem a falar de uma arte pela arte. Há sempre engajamento na minha escrita. Mas o meu grito é um grito daqui para o mundo. São sentimentos e pensamentos daqui que partilho com o mundo. Um excessivo apegamento ao local pode levar-nos para aquilo a que chamo de “autoctonismo artístico”. Que é algo muito perigoso, pois retira a vitalidade da arte à medida que lhe retira toda a capacidade de dialogar com outros povos e culturas.

JC -  O que é que de mais significativo vocês retêm da herança literário-cultural de Benguela?
GP - Acho o espaço do livro bastante redutor e reduzido, e seria bastante injusto achar que um escritor em particular representasse Benguela. Há muito mais para lá do asfalto e do mar, ao passo que a literatura, colhida pela bitola de Gutenberg, pouco desce do prédio. Eu sou o povo, é nele que me acho, na sua riqueza linguística, na sua tradição oral que tanta lassidão parece gerar para os holofotes. É esta a minha missão. O livro é um complemento.

MK - Esta é a pergunta a que nós, os escritores de Benguela, teremos de responder sempre? Parece que sim! E ainda bem. Porque demonstra que temos responsabilidades. Lembra-nos o legado recebido de Alda Lara, Aires de Almeida Santos, Pepetela, Raúl David e outros. Deste ponto de vista, penso que é a preocupação com as nossas gentes e os nossos lugares. Não só poetas mas, sobretudo estes, sempre tiveram esta preocupação de eternizar os lugares e pessoas. Isto está patente no famoso poema “Meu amor da rua onze”, de Aires de Almeida Santos.

JC – Como foi que o Patissa compôs o “Fátussengóla…”: juntou todos os contos que tinha ou seleccionou-os previamente?
GP - É óbvio que um escritor está sempre a escrever. No meu caso, alguns contos evoluem das crónicas que componho para o blog Angodebates, outros nascem como tal. E quando noto que há uma quantidade razoável, intensifico o trabalho de laboratório, visando excluir os menos conseguidos e aprimorar os que ficam. Dois dos contos não puderam entrar no livro “A Última Ouvinte” (UEA, 2010), com o qual me estreei na prosa.

JC – “Fátusséngola…” ganharia muito se não incluísse algumas peças, reduzindo-o à menor dimensão e à melhor excelência possível. Quer comentar?
GP - É difícil ter-se uma percepção a este nível quando nos colocamos no papel de criadores apenas, ainda mais por se tratar de colectânea de contos escritos entre 2001-2014. Na verdade, nunca sei como o trabalho será recebido, daí ser importante (mau grado ser escassa) a oportunidade de ser estudado e aprender com as sugestões que advierem.

JC – As figuras que você retrata nas estórias são ou foram reais? Por exemplo, o Fátussengóla existiu mesmo?
GP - Fátussengóla existiu, mas o que descrevo é ficção. A verdadeira história é muito amarga, não sei contá-la. Foi um mágico de levantar pessoas com os dentes pelo guarda-cinto, a título de exemplo, juntando prestígio ao ganha-pão. Mas com o apertar da penúria alimentar, no início da década 1990, ele enveredaria para o assalto a residências, perdendo a vida apedrejado. Apesar de não ter participado na barbaridade, tendo em conta até que eu era muito pequeno, carreguei sempre uma espécie de culpa indirecta, sendo este conto e título do livro uma espécie de redimir o bairro Santa Cruz, no Lobito.

JC – Vocês nasceram em plena guerra. A guerra terá moldado, de alguma forma, a vossa visão da vida?
MK - Sem dúvidas. A minha geração tem de carregar esse trauma e essa responsabilidade. Os horrores da guerra nos privaram de muitas coisas mas nos fizeram mais fortes e mais preparados para a vida prática. Temos responsabilidades acrescidas; precisamos denunciar a loucura que é a guerra. Hoje precisamos dialogar mais, religar laços, estabelecer pontes, humanizar…é para esse sentido que, em parte, aponta o título do meu livro, Humanus.

GP - Acho que ganhei desde muito cedo a certeza de que a guerra, qualquer que seja ela, é uma estupidez. Uma criança tem sete anos e já sabe que não se pode comportar mal com a tia porque é nas costas desta que se há-de acoitar quando surgirem os ataques da guerrilha, já que a mãe tem uma bebé para cuidar. Tinha pouco menos de cinco anos quando a minha mãe levou com uma bala da guerrilha na bochecha, comigo às costas, numa madrugada de frio orvalho de cacimbo, que bem se podia ter alojado na minha cabeça e vos poupar destes escritos, não fosse a péssima pontaria do atirador. Quem disparou? É da mesma etnia, da mesma região, quiçá do mesmo sangue. O fim da guerra dá-se comigo envolvido no sector da sociedade civil, que muito contribuiu para a consistência da consciência cidadã. A minha escrita tem inevitavelmente uma abordagem, não apenas de reivindicação identitária, mas também de algum activismo pela vertente do exercício da cidadania.

JC – O M’Bangula já tinha os poemas todos prontos, juntando-os apenas, ou escreveu-os como projecto de livro?
MK - Como disse antes, para mim o acto de escrever é sempre um acto involuntário. Os cinquenta poemas constantes do livro Humanus foram escritos, na sua maioria, entre 2012 e 2013. Estava a juntá-los para um projecto, a minha de trilogia poética Sexorcismo (2008); Sexonância (2011). Contava publicá-lo com o título de Sexonetos mas, quando o meu amigo Gociante Patissa falou-me do Projecto Ler Angola, nada mais fiz senão dar-lhe um título que não assustasse o júri.

JC - Porque razão optou pela forma tradicional do soneto, ademais com os versos rimados, quando praticamente nenhum dos seus coetâneos o faz?
MK -  Isto sim! Foi intencional. Foi um desafio que me impus para dar corpo à minha proposta filosófica. A trilogia poética, como referi, devia culminar com a publicação de sonetos. Pois cada um dos três livros tem uma mensagem própria. E essa particularidade estende-se à forma. A quantidade, cinquenta poemas, partiu de um amigo que me falou na ideia de “meia centena”, gostei e avancei.

JC – Em algum momento lhe ocorreu que estava a sacrificar o conteúdo à forma?
MK - Sim, várias vezes. Mas fui encontrando sempre formas alternativas.

JC – Como é que vocês encaram o país e o seu futuro?
GP - O recurso ao passado é feito de maneira selectiva, dada a responsabilidade que recai sobre os ombros de qualquer angolano. Por muito que ficcionemos, ficcionamos sobre uma realidade objectiva. Não perco de vista o equilíbrio necessário à manipulação das dimensões cultural, social e estética. No entanto, acredito que lidar com o passado, sem deixar de ser uma missão premente, é ao mesmo tempo passível de coarctar, ainda que inconscientemente, o devaneio criativo de qualquer iniciativa que tenha por base de trabalho o realismo a partir da década de 1960. Pessoalmente, no meio rural, onde vivi até aos sete anos, testemunhei actos da mais feroz barbárie. Já no centro urbano, viria a testemunhar outros. São memórias frescas, voláteis mesmo. O tempo saberá o que fazer. Quanto ao futuro do país, já tive mais certezas.

MK - Seguramente. Vejo o país com os olhos de quem já chorou, passou fome e viu pessoas a morrer. Amo mais o meu país, amo mais a paz. Sei quanto valem os nossos bens públicos. Sinto-me mais militante dessa nova Angola. Temos tudo para dar certo. Aprendemos com a guerra, estamos a corrigir os nossos erros do passado. Acredito que é necessário apenas continuar com o trabalho em curso de inclusão social, diminuição das desigualdades sociais. Promover a nossa auto sustentação alimentar, a industrialização do país. O resto vamos todos fazendo, com educação, disciplina e trabalho.

Literatura angolana em Portugal| A editora NósSomos tem para venda e entrega imediata os seguintes títulos, ao preço de 3 euros:

FOGO& RITMO - Agostinho Neto, 
MEU AMOR DA RUA ONZE - Aires de Almeida Santos,
DESEJOS DE AMINATA - Lopito Feijoo,
A CIGARRA DESCONTENTE - António Cardoso,
8:2= 23 - David Capelenguela,
GUARDANAPO DE PAPEL - Gociante Patissa,
CONTRAFÉ - Carlos Ferreira.
Pedidos para os emails etutanu@gmail.com ou monteiroferreira@hotmail.com

Também podem ser feitos para Rua Queiroz Ribeiro nºs 11/15 - 4920-289 Vila Nova de Cerveira ou pelo telefone 251795115.
Divulguem, por favor.

Grande entrevista ao portal REDE ANGOLA| “É preciso abrir o espaço público aos cidadãos”, Gociante Patissa analisa o estado da comunicação social fora de Luanda e fala sobre a importância das línguas angolanas

Miguel Gomes (Texto), José Alves(Fotos)Daniel Gociante Patissa nasceu na comuna do Monte-Belo, município do Bocoio, província de Benguela, em Dezembro de 1978. Tem licenciatura em Linguística, especialidade de Inglês, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação da Universidade Katyavala Bwila (ex-Agostinho Neto).

É membro efectivo da União dos Escritores Angolanos. Foi o laureado do Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, “pelo seu contributo na divulgação da língua local umbundu, na perspectiva das tradições orais, através do conto e novas tecnologias de informação e comunicação”.

Já editou cinco livros: Consulado do Vazio (poesia), A Última Ouvinte (contos), Não Tem Pernas o Tempo (novela),Guardanapo de Papel (poesia), e Fátussengóla, O Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (contos). Para além da actividade como escritor, Patissa é autor de dois blogues: Ombembwa Angola (http://ombembwa.blogspot.com/) e Angola, Debates e Ideias (http://angodebates.blogspot.com/).

Durante a conversa, Gociante Patissa analisou o estado da comunicação social em Benguela, falou sobre a importância das línguas angolanas e das dificuldades de afirmação num contexto dominado pelo português. E revoltou-se com a recente perda do k, y e w.

O Gociante Patissa tem um blogue, foi radialista, tem um percurso na comunicação social e também fora desse meio. Gosta de escrever. De que forma analisa a história do debate de ideias na sociedade angolana?
Não sei se a maturidade é isso, mas sinto que vai havendo um decréscimo em termos de espaço para discussão de ideias. No tempo de guerra havia mais. Falo isso com algum conhecimento porque tive dois programas de rádio, que promoviam debates. No tempo de guerra discutia-se um bocadinho mais, mesmo reconhecendo que por vezes se chegava ao excesso. Agora há a preocupação em ter um discurso comedido. Por aquilo que se vai ouvindo, porque também oiço a opinião dos outros, no sentido da pluralidade, os debates promovidos pela Tv Zimbo vão se destacando pela positiva. Mas o nível de discussão de ideias ainda não é o ideal. A minha grande preocupação é que caminhamos para um processo de exclusão na comunicação social.

Falta uma perspectiva abrangente do país e das pessoas?
Sim, e mesmo quando há debates na rádio só vai ligar para participar quem tem Kz 900 para comprar saldo. Não sei qual é a alternativa que devemos criar. Sou auto-didacta em termos de comunicação social. Há muitos autores que defendem que a rádio deve reflectir a vivência da comunidade. Não é que se defenda a banalidade. Não. Mas em termos de método deve ser assim.

Um pouco à imagem de um velho jargão: o jornalismo também serve para dar voz a quem não tem voz.
Naturalmente. Acho até que os canais de telenovelas só têm o impacto que têm porque uma boa camada da população não se sente representada nos programas oficiais.

Na sua opinião, revêem-se melhor nas historietas ficcionadas?
Não só, também precisam de se ocupar de alguma forma. As pessoas têm de alimentar o seu imaginário. E a novela faz isso. Tem de se fazer um trabalho mais profundo, respeitando o princípio de que a própria comunicação é uma arte.

Os bons escritores contam histórias ricas, falam sobre as pessoas, são humanos. Jornalismo não é só isso mas também precisa dessa perspectiva. Estamos a falhar nalguma coisa?
É possível. Depois há também a questão de não haver estudos de audiência. Os que existem são pequenos e mal divulgados. Também não há concorrência no sector da comunicação social, as linhas editoriais são fracas, às vezes dá a ideia que não faz diferença ter bons programas. Não sei bem o que podemos fazer mas é preciso chegar um bocadinho mais perto das pessoas. Não no sentido de apenas trazer, mas de colher também. Costumo sempre dizer que (e agora já temos números oficiais) vivem em Luanda 6,5 milhões de pessoas e, se calhar, num fim-de-semana não se vendem mais de 50 mil jornais nas bancas e nas ruas da cidade. São números mesmo muito baixos.

Que conclusão podemos tirar daqui? As pessoas não compram porque não se revêem no que é publicado?
É preciso recuar e entender a vertente antropológica. A população angolana é maioritariamente Bantu, com uma forte tradição oral. Os hábitos de leitura são ainda um desafio. Se já temos um povo que por essência tende a ler pouco, e se depois a história que se retrata é do outro, parece haver pouca proximidade afectiva. A comunicação social tanto é carrasco, como é a vítima também. É um círculo vicioso. Os jornais acabarão por ser os mais prejudicados em termos comerciais. Uma vez estava a falar com um livreiro, o senhor Grilo, que tem um espaço no Mercado de Benguela. Havia lá um livro, uma compilação de anedotas, e perguntei: “Então os nosso livros?”. “As vendas estão um bocadinho fracas”, respondeu. Voltei à carga: “E o livro de anedotas?” “Também está a apanhar poeira”. Julgo que a rádio é, actualmente, o meio mais potente, acessível e barato. Há várias razões que concorrem para essa importância. Devemos pensar melhor nas vantagens das emissões de rádio em línguas nacionais. No fundo isto está ligado à nossa história: a consolidação da caminhada, da independência e de nós próprios enquanto nação contou muito com a comunicação social, especialmente a rádio.

Como analisa a circulação e acesso à informação fora de Luanda?
O cenário parece ser mesmo muito pobre. As províncias estão praticamente excluídas deste processo porque apenas têm a internet e a voz oficial do Estado (TPAJornal de Angola eRádio Nacional e afins). Os cidadãos que vivem fora de Luanda não têm acesso à diversidade. É um quadro preocupante, tanto do ponto de vista do consumo da informação, como da sustentabilidade da profissão de jornalista. A história das profissões ligadas à intelectualidade tem de ser vista de dois galhos: os que existem e os que têm de existir. Ao nível da imprensa escrita, que é onde temos mais debilidades, a situação é complicada. Olhando para a realidade de Benguela, tivemos o Kessongo, do jornalista Ramiro Aleixo (actual director do semanário Agora), ou o Cruzeiro do Sul, do Ismael Mateus. Agora há apenas o intermitente Chela Press. Se olharmos para Benguela como segunda capital, é preocupante que, tirando as rádios, não se produza mais nenhuma informação local.

Voltamos ao velho problema: como se vai investir em algo que não tem retorno económico?
Pois, realmente não é fácil. Se calhar o Estado deveria pensar em subvencionar a comunicação social e reactivar o parque industrial ligado ao sector. Todo o papel é importado. Eu colaboro com o Jornal Cultura e, sem grande justificação, por vezes o número de páginas é reduzido. Será que é falta de papel? É preocupante. Houve agora um apoio ao sector da literatura mas se calhar também temos de pensar em medidas concretas para fomentar a produção de informação. A rádio e televisão têm outra dinâmica e enchem o coração das pessoas mas são sectores fechados à concorrência. A visão que existe é sempre a mesma. Isso cria uma sobrecarga noutros sectores do sociedade. Quando há concursos públicos de emprego apenas a educação e a saúde têm vagas massivas. E aquelas pessoas formadas em outras especialidades vão todas para o professorado tendo, ou não, vocação. Fazem falta mais rádios e eu sei que, pelo menos, duas pessoas de Benguela têm projectos de investimento nesse sentido. É preciso abrir o espaço público aos cidadãos. A rádio, em muitos países africanos, é quase uma instituição. É possível. No meio está a virtude. É sempre preciso encontrar este elemento de equilíbrio. Às vezes eu penso que há um pouco de receio dos excessos.

É um receio que ainda se mantém nas altas esferas políticas e militares do país?
Certezas não tenho, mas às vezes acho que quem vem de um quadro de guerra, como nós viemos, tendo um país como temos, com esta diversidade étnica, linguística, e ainda algumas mágoas por resolver, provavelmente esse receio pode passar pela cabeça de algumas pessoas – e eu penso até que é legítimo. Mas está visto que o quadro actual também não ajuda em nada. Mesmo até na perspectiva do exercício da cidadania. É preciso que surjam novos operadores e diversificar a programação das rádios e televisões. Não é saudável que o espectro continue como está. É mesmo importante trazer diferença para o debate público. É importante estarmos sempre preparados para o lugar do contraditório.

Mudando um pouco de assunto: como analisa o acesso à informação dentro da tradição umbundu? Ou seja, como funciona a circulação da informação e será que é possível fazer uma comparação desse modelo com a sociedade actual?

Uma coisa que precisamos de resolver é que jornalismo é sempre jornalismo, independentemente da língua em que se trabalha. Só que em Angola as coisas não funcionam assim. As línguas angolanas, na minha opinião, estão relegadas ao formato de animação e entretenimento. O jornalista – eu duvido se há jornalistas de línguas angolanas, tendo em conta a prática – está a traduzir as notícias a quente. Não estou a ver como se pode fazer jornalismo baseado na tradução, porque isso é apenas interpretação. Antigamente, e eu tenho arquivos recolhidos, o programa de mobilização patriótica “Angola Combatente” era tão rigoroso, e aquele trabalho era tão importante na veiculação da luta anti-colonial, que havia escrita jornalística em umbundu. Eu tenho alguns desses textos.

Criados pelo jornalista?
Sim, não posso jurar se foi traduzido, ou se foram os jornalistas da época que escreveram tudo. Hoje em dia o locutor pega no texto em português e traduz para umbundu. E depois acontecem as deturpações. Porque lá está: a concepção é que o jornalismo tem de ser na língua oficial, o português. Só que isso não faz sentido. Mas é assim que as coisas acontecem. Talvez no canal Ngola Yetu seja diferente, não conheço bem, mas fora de Luanda é o que se assiste.

Com que consequências?
Nos programas em umbundu, mesmo que existam excessos, as coisas acabam por ser desvalorizadas. É como se não fosse jornalismo. Se quisermos olhar para as línguas com o valor que devem ter, devemos transportar e aplicar o mesmo rigor que se impõe ao locutor em língua portuguesa. As línguas angolanas continuam relegadas à subalternização. Quando vim do interior, em 1985, com sete anos, numa altura em que apenas tínhamos acesso à TPA, aRádio Benguela emitia uma rádio-novela que tinha muita audiência (hoje seria diferente). Mas fez-se alguma coisa. Precisamos de uma rádio mais criativa. E, naturalmente, precisamos de mais espaço para as línguas angolanas. O espaço disponível é muito pequeno. A Rádio Benguela apenas tem uma hora diária da sua emissão em umbundu.

Acabou por não responder directamente à minha questão: como se processava o acesso à informação dentro da tradição umbundu?
Acho que não havia.
  
Não há nenhuma ligação que se possa fazer com a realidade actual? Como é que as pessoas acediam às coisas que se passavam na comunidade?
Na minha época a comunicação era muito comprometida. Era propaganda política. Tínhamos apenas a rádio Vorgan, da Unita, e os programas Angola Combatente, entre outros. Era uma mobilização orientada. Não havia debate público. No entanto, a forma como a estrutura social estava organizada no meio rural ajudava à circulação da informação. Por exemplo, a produção de fuba, como não há moageiras industriais, é feita na pedra. Então as mulheres cantam. Socializam. O mesmo pode acontecer também na lavra, na caça, no final do dia. Há ainda o ondjango, um espaço destinado ao diálogo.

Então esse espaço pode ser considerado um espaço de troca, de partilha de informações, é um espaço de comunicação social. Concorda?
Sem dúvida. Visto por esse lado, faz todo o sentido. Os óbitos também assumem esse papel. Ainda recentemente um tio dizia-me com lamento: “Hoje em dia, os jovens quando chegam a um óbito pegam num baralho de cartas e ficam a um canto. Muitas vezes nem chegam a saber a causa da morte do finado”. Aquela preocupação de ficar ao lado dos mais-velhos, de ouvir as conversas, de saudar as pessoas. A saudação entre os ovimbundos é uma instituição. A gente não diz “bom dia, como está?”. Não. A gente senta, explica, não só de hoje mas dos dias anteriores, introduz-se o provérbio, a parábola. Mesmo aqui, no ambiente de trabalho, percebem-se esses mecanismos. Quando transportados para a cidade acabam por enfrentar dificuldades de sobreviviência. O dia-a-dia das pessoas é muito diferente. No meio rural, os agentes de socialização funcionam melhor. Como o relógio não tem grande função, o diálogo acaba por ser o relógio. O tempo individual depende do fim do diálogo. Na cidade, as coisas são diferentes porque as pessoas têm de cumprir horários e têm um estilo diferente de vida.

Foi também por isso que decidiu criar um blogue em umbundu? Para divulgar e aproveitar as novas tecnologias e dinamizar a utilização do umbundu?
Ainda bem que levanta essa questão. Agora estou um bocadinho contente porque o contador de visitantes, que no início era dominado pelo Brasil, Portugal e Angola, inverteu-se. Portugal lidera as visitas. É verdade que o principal fluxo de visitantes do blogue tem origem na diáspora. O blogue é quase uma atitude desesperada. Eu preciso de praticar o umbundu, de manter a língua viva. Não havendo mecanismos físicos, a pessoa usa o blogue.

Durante algum tempo o blogue era só em umbundu, depois resolveu traduzir. Hoje é bilingue. Para si é mais fácil escrever em umbundu ou em português?
Escrever em umbundu demora muito tempo. É mais fácil escrever em português – porque o umbundu não tem dicionário. Eu faço traduções. Para traduzir três páginas para umbundu posso levar um dia inteiro. O dicionário é mental. Se alguma expressão, se alguma ideia me escapa, tenho de confirmar junto de amigos ou conhecidos. É muito trabalhoso. Como não tenho muito tempo, faço textos curtos e bilingues. Produzir uma crónica em umbundu não é fácil.

É difícil encontrar as palavras certas ou as ideias mais precisas?
Tenho mais dificuldades com as palavras. Em termos socio-linguísticos tudo está por fazer. É natural que a prioridade tenha sido a busca da paz, essas coisas todas, e não há debate sobre isso porque estamos de acordo. Mas a parte mais triste é que continuamos com os paradigmas que foram elementos de opressão. É uma vergonha dizer isto mas é a realidade.

Pode dar-nos um exemplo?
Em alguns aspectos, a afirmação enquanto elite depende de quanto tu finges não saber falar as línguas nacionais.

Nesse caso temos de lembrar que uma série de angolanos foram “assimilados” pelo regime colonial – e para aceder a essa categoria administrativa tinham de provar que comiam de faca e garfo, falavam e escreviam bem o português, tiveram de renunciar às línguas angolanas e assumir a religião católica. Estas pessoas, que depois da independência ocuparam lugares de destaque na estrutura social e política do país, ainda têm uma grande preponderância?
É isso. Mas cinquenta anos depois, a questão já não é o mal que fizeram às línguas angolanas. A questão é o que não estamos a fazer por elas. Este é o problema. Agora o Ministério da Administração do Território (MAT) está felicíssimo da vida a festejar uma nova invenção que consiste em castrar as letras k, y e w. Eu não aceito. Eu não acredito que isto está a ser feito por um angolano. Não acredito mesmo.

O argumento do MAT é que há um decreto (do tempo colonial) que obrigava a escrever dessa forma. E que estão a reanalisar o caso.
Mas lá está, o ministro é formado em Direito e os advogados ou juristas têm alguns problemas com as interpretações. Talvez seja um defeito de formação do ministro Bornito de Sousa. Como é que um país que se considera soberano vai recorrer a este tipo de medidas? É absurdo pensar que tudo o que foi trazido pelos portugueses é errado. Não é por aí. Mas é necessário criar um crivo para analisar as coisas positivas. Uma das coisas positivas é a própria língua. Só que o português, em Angola, será sempre uma língua infeliz enquanto representar a opressão.

Esse sentimento ainda é muito visível?
Por exemplo, os falantes de línguas angolanas têm como que um botão. Eu ligo o meu botão como angolano e ligo o meu botão como estrangeiro. Eu nunca vou falar Catumbela (com u) porque a palavra não existe. As palavras evoluem, claro, mas a palavra de origem é Katombela. Dificilmente vai ouvir um falante de umbundu a dizer Katumbela (com u). Não existe. Mas lá está, o meu amigo Luciano Canhanga (também conhecido por Soberano Canhanga) defende o seguinte: um país que ainda não conseguiu recuperar os aspectos relacionados com o ensino identitário em matéria de línguas angolanas não pode sair por aí a vender corruptelas. Algumas pessoas que estão em postos de decisão não falam as línguas angolanas e nem sequer têm a sensibilidade para ouvir a opinião dos outros.

O que se deve fazer neste caso?
O opressor colocou-nos todas estas dificuldades mas eu tenho 500 anos de resistência e as nossas línguas sobreviveram. Neste momento, o meu próprio governo está a defender leis que também o opressor defendia. Há dias ouvi o director do semanário Expansão, Carlos Rosado de Carvalho, a dizer: “Eu tenho a minha opinião, mas sei que no fundo, no fundo, quem vai decidir é o governo”. Nós temos a nossa opinião de protesto. Se o MAT quiser impor até ao fim a sua vontade, o que vamos fazer? Nada. Mas vai-nos doer. Será uma espécie de neo-colonização. Isto dói! Em nome da legitimidade podem ser cometidos erros, como este, que é um erro, mas se eu me acobardar e deixar de defender a minha identidade – então é melhor deixar de existir. O bom-senso tem de prevalecer. Os nomes das localidades são importantes porque os povos africanos, sobretudo os Bantu, não dão nomes à toa. Todo o nome é um provérbio, uma história e através dos nomes das localidades é possível contar a história do país, das províncias, das cidades e das aldeias.

Também seria uma forma de aproximar as pessoas da escola e do sistema de ensino.
Sim. Tem de haver um diálogo intersectorial. O MAT tutela o território no seu aspecto demográfico e da geografia, mas tem de respeitar aquilo que é a interdisciplinariedade. Há uma vertente antropológica que o MAT não tem legitimidade para analisar. Não é da sua competência fazer um estudo da história do país. Então tem de haver concertação. Onde está o Ministério da Cultura que ainda não deu um murro na mesa?

Também o Instituto de Línguas Nacionais poderia ter uma palavra a dizer. Qual é a sua opinião em relação ao instituto? A sua função é profunda e nobre: promover, investigar e estudar as normas, publicar gramáticas e material de apoio. Mas parece ter poucos investigadores e poucos meios.
A minha impressão é um pouco limitada. Penso que a sua acção em temos de visibilidade está muito centrada em Luanda. Por outro lado, há a escassez de quadros. É preciso encontrar uma forma de investir a fundo nas línguas angolanas. O estudo acaba sempre por ser um processo a médio e longo prazo. E o país está a formar linguistas.

É um deles.
Mas não tenho experiência. Eu encaro a escrita como um exercício de identidade. É quase mecânico abordar certas questões. As questões culturais estão sempre presentes nos meus textos. Estamos atrelados a esse tema. É preciso o país gizar um programa sério para inventariar os quadros que tem e depois potenciá-los. Nem que tenhamos que recorrer a cooperantes – e não podemos ter patriotismos meio-cegos quanto a isto. Precisamos de técnicos que nos capacitem. Eles que venham.

Mas a linguística tem sido uma das áreas onde mais angolanos se têm formado. O que fazem estas pessoas?
Isso leva-nos a outra questão e já escrevi um artigo no Jornal Cultura sobre o assunto. Temos de questionar o que estamos a formar. Se a universidade é, por definição, o local certo para o exercício científico, então como é que uma universidade que me gradua não tira proveito do produto que eu deixo enquanto tese? Começa por aqui. É preciso rever a constituição dos conselhos científicos. É preciso reactivar o princípio da responsabilização das pessoas pelas suas falhas. Não pode haver denúncias de corrupção e venda de teses e não se faz nada contra. Não há fumo sem fogo. Se há sucessivas denúncias é porque isso existe e tem de se fazer uma investigação. E depois devíamos ter conselho científicos suficientemente consistentes para apurar, entre as teses apresentadas, as que têm qualidade e devem ser vertidas em livro. As teses estão nas prateleiras a apanhar poeira. No dia a seguir à apresentação da minha tese estava a ser contactado pelo coordenador do curso (pessoa por quem tenho muita consideração) para dar aulas. Quer dizer que a universidade tinha essa expectativa. Mas eu não tenho vocação para dar aulas.

E se não for a dar aulas, não há mais espaço na academia?
Como disse, não aceitei a proposta, mas a minha condição foi: organizem um sector versado para tradução (fiz linguística para inglês, sei português e umbundo, podia fazer algumas coisas interessantes a este nível) e para fazer pesquisa e eu vou contribuir. Nem que não me paguem.

Para fazer investigação?
Naturalmente. Nem todos temos vocação para dar aulas. Então, temos outras ferramentas. A universidade não pode ser só isso. É preciso activar o sector de investigação científica para produzirmos textos e ensaios sobre Angola e os angolanos.

As universidades não estão a fazer investigação científica? Nesse caso, não serão bem universidades.

Não estão mesmo. Não estão. Imagine só: estudamos Noam Chomsky, que é um quadro que não se questiona, estudamos Stender-Petersen, todos os nomes importantes da linguística. Mas, depois, falta-nos o conteúdo local.

Uma ligação à terra.
Exacto. A força da gravidade parece que não existe. Então os estudantes ficam ali encerrados em algo que não lhes toca.

As pessoas sentem a falta da tal ligação à terra e isso cria desinteresse nos alunos?
Levantei esse tema na minha tese de licenciatura. Comecei a aprender inglês em 1993. Mas uma das aspirações era emigrar e encontrar melhores condições de formação e trabalho. A minha força estava ligada a um objectivo. Dá a impressão que se a pessoa não associa a aprendizagem a alguma coisa acaba por apenas cumprir calendário. É preciso associar o que se aprende a uma utilidade prática. Essas falhas não são apenas dos sistemas de ensino, estão ligadas à ideia de cidadania. Quando percebemos que o que estamos a aprender serve para a vida tudo parece mais simples. Mas quando isso não acontece fazemos um curso pela simples obrigação de estudar.

De certa forma estamos a falar do valor da cidadania: de participar, de ter objectivos, de ser um agente activo no meio social?
Acho que sim, mas os contextos influenciam a forma de pensar. Não estou a dizer que sou perfeito e que não cometo erros graves. Mas há sempre aquele ponto em que questiono: o que estou a fazer pela minha terra? Precisamos de espaços de discussão, de debate. E de passar valores. Carecemos disso.

Nesse caso, como vê a participação dos jovens na política activa? É filho de um político.
Mas sou apolítico.

Não se revê em nenhum partido?
Revejo-me na união. Não tenho cartão de nenhum partido. Se o partido em relação ao qual a minha família está ligada praticar um acto que viole aquilo que eu considero soberano – indigno-me. Porque eu acho que Angola está acima de qualquer intenção político-partidária. A acção dos partidos só faz sentido se promoverem a união. Já sofremos o suficiente.

Já estamos nesse estágio? Os partidos contribuem para o conjunto ou estão amarrados a agendas e projectos pessoais?
Os partidos não sofreram nada, quem sofreu foram as pessoas. Então não podemos esperar que, de repente, as pessoas passem uma tábua rasa sobre as suas mágoas. É pedir demais. O que se quer é que aquelas pessoas que têm poder para dar a sua opinião e tomar decisões, se lembrem sempre que o compromisso que temos com a pátria é promover a união. É muito fácil dizer que vamos esquecer o que está para trás. Não vamos esquecer nada. Vamos é aceitar que isso passou e que depois virá algo muito melhor.

Até porque o tempo da história não funciona assim. Não é possível parar tudo e recomeçar da estaca zero.
É verdade. Isso não existe. Quando vejo alguns jovens com argumentos radicais e a dizer “vamos voltar à guerra!”. Epá! (risos)

Fica assustado? Como analisa esse tipo de discursos agressivos, que ainda se mantêm entre nós?
Em todos, ou quase todos, os meus livros entra uma personagem chamada Mbali. Mbali é o nome da minha tia. Era nas costas dela que eu corria quando a guerra rebentava. Sempre que se ouvisse um tiro de ataque eu subia às costas da minha tia. Se eu não consigo livrar-me dessa personagem… A minha mãe, que já não vive, infelizmente, carregou até ao fim da vida uma cicatriz na bochecha. No rosto. Foi um tiro. Eu estava às costas dela. Se tivesse tido menos sorte a minha cabeça poderia ter sido atingida. Como posso dizer que quero guerra? Não quero. Não guardo mágoas, porque na guerra não se oferecem caramelos. A guerra é assim e a guerrilha ainda é mais brutal. Não faz sentido apelar à guerra. Vamos ao debate de ideias, vamos condenar os excessos, sejam de quem for (polícia, oposição, governo). Porque não há excesso que construa.