À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS

À VENDA NOS SEGUINTES LOCAIS
EM BENGUELA: Tabacaria Grilo, edifício do Mercado Municipal, rés-do-chão. EM LUANDA: Livraria Lello, Livraria Mensagem, Livraria do Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, sala de embarque. Pode também comprar na sede da União dos Escritores Angolano, Largo das Escolas, nas imdediações do Largo das Heroínas. O autor agradece!

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

PAKAMBA ÑO NAITO / BREVEMENTE / COMING OUT SOON

domingo, 20 de julho de 2014

Acaba de sair mais um ensaio sobre tradição Oral Umbundu. Leia no JORNAL CULTURA nº 61, de 21 de Jul a 3 de Ago, pág. 9.

Oratura: ACEITAMOS «OKUPOKIWA» EM DIAS DE CARÊNCIA?


Em outubro de 2005, visitei zonas recônditas no Sambo, comuna do município da Cikala Colohanga, no Huambo. Fiz parte do grupo de pesquisadores a grupos focais ao serviço da inglesa «Save the Children». Os alvos eram crianças órfãs e vulneráveis na Ombala de Ciyaya, capital tradicional de cinco aldeolas de refugiados provenientes da Zâmbia, cerca de oito quilómetros da comuna de Samboto. A povoação ressentia-se do fim da assistência do Programa Alimentar Mundial, agência humanitária da ONU.

Mesmo que o código de conduta da «Save» não proibisse gratificações de ordem material daqueles aldeões que ensaiavam a readaptação, finda a guerra que um dia os afugentou, o quadro crítico de penúria dizia bem que nada tinham para oferecer. Para se ter ideia, ainda aos nove anos, várias crianças andavam na produção de carvão vegetal para sustentar pais e avós, muitos dos quais dependentes de aguardente artesanal.

A recolha de dados ficou concluída com êxito em uma semana, conforme o plano. O que, entretanto, não esteve previsto foi a tensa conversa com o Soba grande da Ombala na hora da despedida. Fazia questão de nos regalar com duas galinhas, dois quilos de feijão e alguma batata-doce. E agora, o que havíamos de fazer? Receber, ou não?

Uma comissão reuniu-se no cantinho, tendo como interlocutora a mais-velha do grupo. Primeiro, era-nos enorme a empatia pelo sofrimento, não fazendo grande sentido despenderem do já tão pouco. Segundo, o código de conduta proibia-nos, pois não estávamos ali em visita, mas a trabalhar sob pagamento. O Soba, que sabia ao mesmo tempo ser cordato mas intransigente, considerou de improcedente a nossa visão. Não é «nosso», sublinhava, terminar uma visita sem «okupokiwa», símbolo de hospitalidade!

Como o leitor terá já percebido, cá estamos com mais um estudo, outra vivência para abordarmos aspectos da tradição oral do grupo etnolinguístico Ovimbundu. O verbo «okupoka» (regalar) ou «okupokiwa» (ser regalado) refere-se a bens alimentares para a boa hospitalidade, genericamente servidos como refeição, donde se destacam a «ocisangwa» (bebida feita à base de farinha ou rolão de milho, conhecida pelo seu aportuguesado quissângua) e a galinha. A norma do bom acolhimento assenta no adágio de que «ukombe elende; ndopo yaco lipita» (o visitante é nuvem; passa logo).

Quanto às regras de confecção, é certo que cada grupo entre os Bantu do território de Angola tem particularidades próprias. No essencial, a galinha é guisada e servida com todas as partes que a integram, reservando-se ao visitante a primazia de abrir a mesa e escolher das porções que bem entender. Não devem faltar o coração, as tripas, as coxas, as patas, as asas, a moela e por fim o rabinho. Dado o risco de o visitante levar à risca o direito que lhe cabe, e daí apossar-se da tigela inteira, outras iguarias não tão especiais complementam a ementa para os anfitriões, tais como o feijão e as verduras. Daí que esta praxe exija dos anfitriões uma preparação das crianças, por não ser propriamente frequente para consumo o abate de animais de criação.

Julgo não estar muito longe da verdade se afirmar que os Ovimbundu levam muito mesmo a mal qualquer gesto passível de ser interpretado como desprezo ou colocar alguém na condição de mendigo. É óbvio que nem tudo é linear. A vida na cidade é cara, aliás bem eloquente é o aforismo: «ohombo yilya opapelo, omunu olya olombongo» (cabrito come papel, pessoa come dinheiro). Tal não é, porém, a herança ancestral de povo camponês, criador de gado e caçador, como dá a entender a máxima «casupa oco catenlã» (se sobrar, é porque satisfez), ou ainda «nda cipwa, cipwe; ocipa ha nanga ko» (se gastar, que gaste; pele de animal não é tecido de algodão).

Tão sagrada é a boa hospitalidade que, ainda hoje, é quase uma questão de arte o papel de bom visitante lá onde os anfitriões estejam conglomerados por laços familiares ou de forte afinidade. Como se desenvencilharia o caro leitor se cinco lares, na razão de uma galinha por cada, lhe fizessem chegar à mesa o prato? Ora, o segredo está em comer um bocado de cada lar. De outro modo, fica a mágoa de quem vir a comida rejeitada.

Regressemos, pois, ao dilema do Soba grande de uma aldeia de refugiados em extrema carência mas que exigia que aceitássemos a oferta de bom hospitaleiro. Ora, entre a ética positiva de base ocidental e a costumeira africana, onde os anciãos são por vocação uma entidade, tivemos de arranjar um meio-termo. Não era prudente afrontar uma autoridade tradicional, quando se iria caminhar cerca de dez quilómetros em mata cerrada. Foi então que juntamos o que sobrou da nossa logística, se bem me lembro uma lata de leite, grade de gasosa, uns cinco quilos arroz, massa, óleo alimentar, sal, sabão, peixe seco, entre outros, que não ficaria por menos dez mil kwanzas.

Para terminar a reflexão de hoje, diríamos que «okupoka» é um gesto simbólico de boa hospitalidade, geralmente ligado a géneros alimentares, que tanto podem ser consumidos durante a estadia, ou levados como lembrança.
Gociante Patissa, Luanda, 12 Julho 2014

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Oratura: O CÂNTICO DE KAPALANDANDA E A DÚVIDA DA MINHA ADOLESCÊNCIA

É frequente ouvir-se a referência ao “tempo de caprandanda” (grafia errada, pois não temos “R” em Umbundu e o “C” tem pronúncia diferente de “K”). Quando foi e o que houve?

A minha adolescência foi marcada por um quadro complexo no Lobito, onde a residência se confundia com dependências das administrações comunais da Equimina e Kalahanga, uma alguns anos depois da outra. Como as deslocações de pessoas e bens eram mediante as guias de marcha, “trabalhei” também como dactilógrafo do meu pai, na sua condição de Comissário Comunal, mas sobretudo como pombo-correio da correspondência familiar entre Lobito, Catumbela e Benguela, na maioria destes casos até… a pé.

A exposição à propaganda despertou cedo o meu interesse de observador da política. Evidentemente, havia familiares que (às escondidas) não alinhavam com o Mpla. Estamos a falar entre 1988 e 1991. Calhava encontrar este ou aquele a ouvir a Vorgan, rádio da Unita, com o volume baixinho. Foi assim que certo dia retive um trecho dolente do cancioneiro Umbundu num gingle: “Kapalandanda walila / walilila ofeka yaye/ kapalandanda walila/ walilila ofeka yaye” (Kapalandanda chorou / chorou pela sua Terra/ Kapalandanda chorou / oh/ chorou pela sua Terra). Mas quem foi e chorou porquê? GP

NOTA DO BLOGUE OMBEMBWA: Segue-se, com pequena adaptação, o contributo de Carlos Duarte, in «Jornal o Chá», da Chá de Caxinde, Nº 10 - 2ª série, Abril/Maio 2014:

“Kapalandanda era sobrinho do Soba Kulembe, da Catumbela. Ia ser Soba. Agiu de 1874-1886. Adolescente, ganhou fama por ter morto sozinho um leopardo que andava a comer as cabras (…) Ainda jovem, inconformado com a passagem e estadia de caravanas de (…) comércio, levando panos e sal para o Huambo – Bailundos – e trazendo borracha, cera, mel e marfim – sem pagamento, pediu uma audiência ao Soba, seu tio, e aos sekulus, onde tentou convencê-los a que fosse cobrada uma taxa – «Onepa» - a essas caravanas. O Soba, acomodado e com medo da reação dos colonos, não concordou. Kapalandanda então reuniu um grupo de guerreiros e foi para o mato, armar emboscadas e assaltar as caravanas, cujo produto, confiscado, era em parte distribuído pelos kimbos do sobado.

Quando os colonizadores tomaram conhecimento, foram falar com o Soba para que tomasse providências e acabasse com essa resistência. O Soba reuniu os melhores guerreiros e ordenou-lhes que fossem pegar Kapalandanda. Mas o resultado foi o contrário do previsto. O grupo de Kapalandanda dominou e derrotou fácil os guerreiros de Kulembe. Os colonizadores resolveram então fornecer armas de fogo o Kulembe, acreditando que, com essa vantagem, acabariam com o grupo guerrilheiro.

Mas Kapalandanda, agindo como um Robin Hood angolano, tinha já granjeado a simpatia de grande parte dos kimbos do sobado; então, emissários dos kimbos saíam para avisá-lo da movimentação das forças de Kulembe, o que lhe deu condições de espera-las para o confronto, em local que lhe era propício, anulando assim a vantagem das armas de fogo.

Uma vez mais a tropa de Kulembe foi derrotada, e Kapalandanda ficou melhor armado. Os colonizadores resolveram então enviar uma companhia de tropa portuguesa, comandada por um capitão de nome Almeida, para submeter Kapalandanda. O encontro deu-se no Sopé do Passe. O grupo de Kapalandanda saiu derrotado e ele levado preso, primeiro para o Forte da Catumbela, e depois para S. Tomé.” 

domingo, 13 de julho de 2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Diário: E SE JUNTÁSSEMOS DIVULGAÇÃO CULTURAL À HONESTIDADE?

Venho notando com satisfação o cada vez mais crescente interesse pela partilha de sabedoria popular nas línguas nacionais de origem africana. É de louvar, principalmente quando se trata de murais de gente mais nova, se tivermos em conta a conotação de que a maior tendência nas redes sociais recai para futilidades. Só me deixa aborrecido notar que quanto à língua Umbundu, não poucas vezes, algumas almas mais não fazem do que ir copiar dizeres aos meus blogue www.ombembwa.blogspot.com e mural do facebook, para colarem em seus murais ao pé da letra. Na minha ingenuidade, acredito que a sabedoria popular é património imaterial colectivo, de qualquer um que por ele tenha a mínima sensibilidade, mas que a tradução é de cunho pessoal. E essa preguiça só pode multiplicar eventuais erros do tradutor "imitado", até porque a Internet não pesquisa, não avalia, não escreve e... não erra. Divulgar a nossa língua e cultura, sim, mas com o mínimo esforço de honestidade intelectual.

Gociante Patissa, 3 Julho 2014

Do amigo Efraim, em Umbundu, via SMS:

"Uteke uwa,Suku tate akulave kwenda akusumunlwise.Ndeci a sumunlwisa Yovi." (Tenha uma boa noite, que Deus pai o cuide e abençoe. Tal como abençoou Job)

terça-feira, 1 de julho de 2014

Kulya, eh, walya/ a fumbelo/ waliminlã ongamba/ okwambatelako elye/ ókulu?"

"Kulya, eh, walya/ a fumbelo/ waliminlã ongamba/ okwambatelako elye/ ókulu?" (trecho de um canto de resistência do cancioneiro Umbundu) - comer, oh, comeu/ o latifundiário foi avarento para com o servo/ quem te há-de carregar os haveres/ ó velho?

"Sipiseko ka mãli ekwanyu; ve yamãle ka mãli umbumba"

"Sipiseko ka mãli ekwanyu; ve yamãle ka mãli umbumba". (Adágio Umbundu) - 'empresta-me o teu cigarro' não sacia a ânsia de fumar; marido alheio não preenche os vazios de solteira.

sábado, 28 de junho de 2014

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR! - A convite do Semanário Angolense, na pessoa do seu director, contribuí com um artigo na edição que assinala os 800 anos da língua portuguesa

O PORTUGUÊS TEM DE DIALOGAR

Falar do futuro do português, o considerado quinto idioma mais popular no mundo, é evidentemente um assunto vasto. Enquanto recolector de tradição oral, interessa-me olhar para a realidade angolana e abraçar a vertente sociolinguística, visto o valor da língua como património cultural imaterial. A propósito, há quem defenda a existência de um tal português angolano. Temos? Sobre isso continuaremos mais adiante.

Não havendo grandes estudos oficiais no que se refere a políticas linguísticas na Angola independente, a partir dos quais teríamos indicadores para avaliar eventuais êxitos ou desvios na sua aplicação, resta assumir que qualquer exercício de previsibilidade do uso do português é ainda mais complexo. E já sabemos que nem valem a pena incursões ao passado, conhecendo como conhecemos a história da chegada da língua, que era até há bem pouco menos de 40 anos instrumento de aniquilação identitária dos povos das então colónias portuguesas, a coberto de uma tal expansão da civilização europeia.

Adoptado o português como idioma oficial, que é inquestionavelmente a língua materna de milhares de angolanos, a questão passa a ser a forma como esta dialoga com os demais idiomas de matriz africana, entre Bantu e não Bantu, nomeadamente o cokwe, fiote, helelo, khoisan, kikongo, kimbundu, ngangela, nhaneka-nkumbi, umbundu, oxindonga, oxiwambo, e o vátwa. E se o leitor nos permite problematizar um pouco sob o axioma de que cada língua veicula uma cultura, a questão seria: que cultura veicula a língua portuguesa numa sociedade multi-étnica e linguística? Bem, é em nome da cultura, que é por vocação um fruto da partilha, que teremos de evitar radicalismos e complexos, sejam eles de inferioridade ou de superioridade, pois as sociedades são dinâmicas e o fenómeno linguístico é inerente à interação dos povos.

Quando falamos do diálogo que deve existir entre as línguas, é tendo precisamente em conta o cuidado necessário para que o status dado a uma língua, que geralmente corresponde a determinado grupo social, não represente a subjugação de outros. Em tempos, um notável intelectual desabafava pelo que interpretava como sendo um sinal da subalternização institucional das nossas línguas nacionais. Não lhe pareceria, pois, razoável a prática de haver sempre um tradutor para estrangeiros que falem à imprensa ou ao parlamento e, entretanto, quando chega a vez de anciãos e autoridades tradicionais, terem de o fazer num português em que por vezes mal se expressam e compreendem, com todo o desconforto que isso implica.


Como defendeu em 2003 a brasileira Eveli Sengafredo, na tese de pós-graduação em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, “a língua constitui-se das mesmas forças políticas, sociais e culturais que produziram as diversas civilizações e culturas do mundo. Ela ocupa uma crucial posição na interacção social, sendo um agente importantíssimo de transmissão de valores sociais e culturais”.

Já existe o português angolano? Há quem defenda que sim, mesmo até com base na linguagem literária que incorpora cada vez mais termos e expressões tipicamente do nosso linguajar, como por exemplo, “é maka grossa me apanhar a pata”. Mas isto basta para legitimar a existência de uma variante angolana? Como caracterizar a pronúncia padrão dos locutores noticiosos, o sotaque europeu? O certo é que o português angolano não existe, tão-só porque não se estabeleceu uma norma própria, oficial.

O futuro do português, quanto a mim, passa por assumir de maneira integradora o seu papel de língua oficial relativamente às outras de matriz africana. Impõe-se um rigoroso trabalho de estudos linguísticos e antropológicos, de modo a valorizar a correcta grafia da toponímia e a essência proverbial dos nomes africanos. Insistir-se na substituição forçosa do “K” pelo “C”, mesmo quando se trata de algo tão representativo como o rio Kwanza ou a província do Kwando-Kubango, pelo magro argumento das confusões por a língua oficial ser avessa às consoantes “K, W, Y”, tão comuns nas línguas Bantu, só vai atrair ainda mais recalcamentos. O português tem de dialogar!

Gociante Patissa, Luanda 25 Junho 2014 (licenciado em linguística, especialidade de inglês)

sexta-feira, 27 de junho de 2014

"Kwati ocimunu!/ Agarrem o ladrão!"

"Vandivanja lolombweti/ pala okundiveta / mekonda lya yuna/ ndayongwile"

TRECHO DA CANÇÃO DE CESAR KANGWE, DÉCADA DE 1980
"Vandivanja lolombweti/ pala okundiveta / mekonda lya yuna/ ndayongwile"

Ver tradução dos meus amigos via Facebook nos comentários

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não deixe de ler na 59ª edição do Jornal Cultura, de 23/06/14, o ensaio Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU


Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.

sábado, 21 de junho de 2014

Ovilongwa kelimi/oviholo lyUmbundu: «ONGANYO YALILE KAPOKO» - Lendas da língua/cultura Umbundu: (o biscate tirou vida a Kapoko)

Umbundu

Olonjanja vyalwa tusyata okuyeva akuti «onganyo yalile Kapoko». Onganyo pwãi nye? Pwãi yolya ndati? Kapoko pwãi elye? Ndomo twacikulihã, olonduko vikwete esinumwinlõ. Omo lyaco, ya Kapoko yatyamenlã kokupokola. Onganyo, okuyitala ciwa ndondaka, yikwete esinlã kelimi lyoputu, cilomboloka okuti upange, ale vo ofeto, ale cina koloneke vilo citukwiwa citi ocinyangu, yendisiwa lomunu umwe okuti vimbo ka kwete ño esilivilo lyenda oko loko. Twami ko.

Ndomo ciyevala tunde kosyãhunlu, Kapoko u ndeti, vimbo liaye wakala ulume umwe okuti apako ka kwatele. Pwãi cenda ovina, ongusu vo ka yokambelele, walikapa okwendisa upange wocinyangu, nda kokulimila, nda kokututa ovitele ale ovikwata.

Eteke limwe, umwe fumbelo watula omwenyo. Ocivimbi vacilangeka vocipata. Vamwe apa oco vasakalala ale lokusonga etumba. Okwiya vavilikiya Kapoko:

- A Kapoko, twasukila alume oco vambate etumba kwalangalo vukulu wendamba. Sandako vali umwe ukwacinyangu.
Kapoko yu watambulula ati:
- Ame ndulume laco, ocimbele ndalisoka laco. Ka cisukila ale vali okufeta alume vavali. Ocivimbi ndicambata mwenle voñoño, kavela ño nda cakutiwa ciwa, etumba kutwe.

Sokiye cina ciwa, epata lyatava okuti, nda oco apopya, momo acitenlã.

Vaenda mwenle ciwa, pwãi okupitinlã kwalangalo ale kokalundu, Kapoko wafetika okusaluka, omo okuti ocivimbi voñoño ka citundi. Pwãi vokwenda, ocivimbi cayeya calwa, ovate veya okukoka okuti letimba lya Kapoko leli lya civimbi vyalilamelenlã. Tatayale, catuviwa. Ondaka yatumuiwa mbi nda okuteta, locimahõ cokutepa etimba lyaKapoko vetimba lyacivimbi, cikasi voñoño. Una omõla wosiwe ati:
- Lalimwe eteke. Tate ka la kwata ofuka… ka kendiwa lepute. Mba kacitava!

Valete mwenle yo kutekanvã. Okwiya mba vati pwãi tê okuvakenda kavali. Kenda calingiwa. Kapoko wataka konganyo. Lomunu opanga upange walisetahãlã, otukuiwa vo ati eye Kapoko.
Osapi yondaka yeyi okuti omunu okataka kesalamihõ, vonganyo omo mutunda omwenyõ, pwãi pamwe vo luveyi haimo.

Português

É frequente ouvir-se a lenda Umbundu «Onganyo yalile Kapoko». O que é “Onganyo”? Como foi que tirou vida a Kapoko? Quem foi Kapoko? Como é consabido, os nomes têm geralmente um significado. Onganyo, olhando a raiz da palavra, vem do Português, querendo dizer trabalho ou ganho, ou aquilo que hoje em dia se chama biscate, sendo que o seu praticante é uma pessoa com um estatuto abaixo da média. Kapoko vem de "okupokola", obedecer. Avancemos.

Reza a lenda que, na aldeia em que vivia, Kapoko foi um homem sem recursos. No entanto, não lhe faltava pujança, pelo que se dedicou a fazer trabalhos pontuais, fossem de cultivo na lavra doutrem, fosse de estiva/transporte.

Certo dia, deu-se o falecimento de um ancião. Foi deitado o corpo na sala, enquanto uns homens engajavam-se em desbastar madeira para o caixão. Kapoko foi chamado:
- Ó Kapoko, precisamos de homens de braços para levar o caixão do mais-velho ao enterro. Arranja mais um biscateiro.
Kapoko por sua vez surpreendeu:
- Não sou homem de pouca envergadura. Dois pagamentos não serão necessários. Levo o corpo às costas, basta amarrarem bem, e o caixão à cabeça.

Após os acertos, a família concordou: se o disse, é porque consegue. A marcha do funeral correu sem sobressaltos, mas chegados ao cemitério, Kapoko começava a entrar em pânico, uma vez que o cadáver não lhe descolava das costas. A baba servia de cola. Várias tentativas redundaram em fracasso. Aventou-se então a hipótese do uso de faca para separar Kapoko do cadáver. Mas um dos órfãos era irredutível.

- Nunca mais! O pai não tem dívidas, não pode ser enterrado com feridas. Definitivamente, não!
Começava mesmo a anoitecer. Decidiu-se por fim pelo enterro do cadáver conjuntamente com Kapoko. E foi feito. Kapoko perdeu a vida num biscate. Ainda hoje, em função da lenda, rotulam-se de Kapoko aqueles que vivem de trabalhos inferiores.
A chave da parábola: o homem está fatalmente condenado a viver à custa do suor, do trabalho vem o sustento, assim como podem vir doenças.

Adaptação da lenda contada pelo velho Víctor Manuel Patissa (1946-2001)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

"Olombongo vikola, vyakanjupile kumãi/ avoyo/ avoyo weh/ olombongo vikola"

"Olombongo vikola, vyakanjupile kumãi/ avoyo/ avoyo weh/ olombongo vikola"

É uma canção dolente, revolta pela impotência humana perante a obrigação de trabalhar para sobreviver. "O dinheiro tem poder, trouxe-me [da paz] da casa da minha mãe [para sofrer], oh, oh, o dinheiro tem poder"

segunda-feira, 16 de junho de 2014

domingo, 15 de junho de 2014

ombambi

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Oratura: «ULONGA», A SAUDAÇÃO ENQUANTO INSTITUIÇÃO NA SOCIOLINGUÍSTICA UMBUNDU

Da casa de um primo seu fazendeiro no Dombe-Grande, o meu pai voltara com arranhões e o bolso da camisa rasgado. A saudade fora tão grande que, à chegada, partiu para um efusivo abraço, gesto que o cão de guarda tomou por agressão ao seu amo, acostumado à regra de se sentar primeiro e saudar depois. Assim é com os Va Cisanji.
Num universo marcado pela exiguidade bibliográfica na recolha da tradição oral, os rígidos preceitos científicos não são propriamente a nossa tenção. Não abdicamos é de contribuir com vivências, ainda que o façamos com a regularidade de um vaga-lume.
Tornando à cena do visitante agredido. Passa-se que tanto este como o anfitrião são de uma localidade culturalmente fronteiriça entre os municípios de Balombo e Bocoio, encaixada administrativamente no último. Dista cerca de 170 Km a nordeste da capital da província de Benguela, território com predominância da etnia Ovimbundu e que se comunica na língua Umbundu, representando 1/3 da população estatísticas avulsas e abrange as províncias do Kwanza-Sul, Benguela e Namibe (costa), Bié, Huambo e Huila (planalto centro e sul).
Segundo Fernandes & Ntondo (2002), referidos em Kavaya[1] (2006: 54), formam o grupo os va Viye, Mbalundu, Sele, Sumbi, Mbwei, Vatchisandji, Lumbu, Vandombe, Vahanya, Vanganda, Vatchiyaka, Wambu, Sambu, Kakonda, Tchicuma, o maior etnolinguístico angolano (acima de 4.500.000 pessoas). Quanto à etimologia, Arjago[2] (2002: 23) sugere que foram apelidados, “pelos povos encontrados, de vakwambundu, o que significa gente vinda das zonas de nevoeiro, tratando-se do litoral”.
Nestes subgrupos, cada encontro, por simples que seja, representa provavelmente uma oportunidade de inventariar a vida, sem preocupações relativas à economia do tempo. «Okwimbwisa ulonga», fazer a saudação, é um longo relato da situação familiar e introduzir o motivo do encontro, desde o último contacto, cobrindo depois o social, o económico e o político. A linguagem é coloquial e inevitavelmente proverbial. Como veremos adiante, entre os Va Cisanji, a «ulonga» é ainda mais minuciosa. Podemos concluir esta fase generalista com a certeza de que é ao bem-estar que se aponta.
Do Bocoio, a minúcia da «ulonga» é norma nas demais quatro comunas: Monte-Belo, originalmente Utwe Wombwa (cabeça de cão), Chila (de Ocila, palco, pista), Cubal-do-Lumbo (de Kuvale Kwelumbu, Cubal Mágico) e Passe (Epasi). O chefe do lar é o interlocutor exclusivo. Nos meios mais conservadores, acomoda-se o hóspede sem diálogo quase nenhum, enquanto alguém vai buscar o interlocutor. Na impossibilidade, é substituído pela esposa e, na ausência desta, pelo descendente mais-velho. É sempre o mais-novo (inferior hierárquico por idade, grau de parentesco, cargo) quem começa a contar o estado de saúde, sendo facultativa a pergunta. Se o mais-velho começa a explicar, é sinal para o inferior distraído o interromper.
Eis algumas passagens de diversas «ulonga». (a) Dialéctica: “Etu vo, mumosi haimo. Tulinga tuti vamwe vatokota, vamwe vapola. Apa mbi omãlã omo vakulila, etu twakulu omo tukukila” (Connosco é igual. Uns quentes/doentes, outros frios/com saúde. Se calhar é o jeito de nós, os mais velhos, envelhecermos e os mais novos crescerem); (b) Fome: “Twalale, omo mwenle apa omo… Etaili, okulikwata komenlã, oco okusuyako” (A noite passou-se, enfim… Hoje, levar a mão à boca, só se for para coçá-la); (c) Insegurança: “Wangombe, apamba lilu” (ao jeito do boi, os chifres em riste); (d) Aflição: “Wambwa, kwatwim kuliwa” (ao jeito do cão, as orelhas sendo roídas).
Resumindo, «Okwimbwisa ulonga», a saudação a preceito, é uma instituição entre os Ovimbundu, constituindo na tribo Ocisanji uma afronta ser questionado pelo mais-novo sobre o estado de saúde, e como tal choque de cultura na interacção até com povos vizinhos.
Gociante Patissa, Benguela, 11 de Junho de 2014



[1] KAVAYA, M. 2006. EDUCAÇÃO, CULTURA E CULTURA DO ‘AMÉM’: Diálogos do Ondjango com Freire em Ganda,/ Benguela, ANGOLA. Rio Sul, Brasil: Pelotas.
[2] ARJAGO. 2002. OS SOBAS: Apontamentos Étno-linguísticos Sobre os Ovimbundu de Benguela. Edição do autor.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

"NDA OMÕLÃ OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio Umbundu)

"NDA OMÕLÃ OLILILA OMOKO YOPUTO, OVE UYAVELA! [ECI YUTETA, EYE MWENLE]" (adágio Umbundu) - Se a criança chora por uma navalha, dá-lha. [Quando se ferir, terá sido por ela mesma]

Explicação: Se o orgulho impede a pessoa de ouvir conselhos, há que deixá-la com as suas escolhas. O arrependimento vem mais tarde com as consequências.

sábado, 31 de maio de 2014

Mais uma razão para se repensar no que (não) fazemos em termos institucionais para a valorização das nossas línguas nacionais

Segundo o jornalista Reginaldo Silva, "Mais projecções do INE sobre o estado da população angolana referentes a 2012..."

quarta-feira, 21 de maio de 2014

(arquivo) Ruído na comunicação: WANDA É COM “U” OU COM “V”?

Passam das 10 horas da manhã. É domingo. Pessoas normais estarão a caminho da praia, a visitar parentes, ou na cama em ressaca, não ligadas ao telefone fixo com discurso repetido para uma lista com mais de 80 nomes. Mas tem de ser, e é comigo:
"Aló", atende-me uma voz feminina. 
"Sim, bom dia. Ligo da empresa X para confirmar se a senhora vai usar o serviço que reservou para hoje. Falo com a senhora Wanda?"

Do outro lado da linha, a senhora não se contém. Rebenta mesmo uma risada com sabor a sarcasmo. Estou calmo e deixo a senhora rir-se às custas do meu ouvido. Instantes depois, satisfeita talvez por lavar a alma, ela confirma, corrigindo:
"/Uanda/?! /Vanda/!!! Sim, sou eu. Vou usar".

Não sou pago para discutir sociolinguística com os clientes. Aliás, pouca utilidade há para pensar, de tão autómatas que certas missões são, pelo que agradeço a atenção e deixo um até logo.

Agora, no intervalo entre uma chamada e a outra, quem ri sou eu. Sim, porque em Umbundu, língua nacional predominante no centro e sul do país chamado Angola, e em particular em Benguela, "owanda", ou simplesmente "wanda" [ua:nda], significa rede. É um nome que se dá a crianças que surgem depois de o casal ter perdido outros filhos. É como metáfora a dizer que a rede da morte poderá arrastar esse recém-nascido a qualquer momento também. E a pessoa cresce com aquele nome. Para a minha interlocutora, de certeza, só existe uma forma, Wanda que se lê com /v/.

Já lá vão uns três anos e não sei como fui pensar logo hoje em ruídos na comunicação.
 Gociante Patissa, Benguela, 08.12.2012

recordando um indignado adágio umbundu com o meu pai: "POWIÑI WAKUTO, NDA KA PAKAVI AVA VAFINYA, PAKAVA AVA VAFEMBULA"

"Powiñi wakuto, nda ka pakavi ava vafinya, pakava ava vafembula"
(no grupo dos que usufruem aos excessos a fartura, se não se cansam os que peidam, cansam-se os que têm de abanar com a mão o nariz torcido para minimizar o fedor).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

CITANDO DE MEMÓRIA (umbundu)

"Ame ndoco nda vakwa CENSO vandipulisile nda ndikwete olusu vonjo, ame nda ndilinga mwenle siti si kwete. Eci ndifeta olusu ndilila, omo okuti - ndapanga ale oviyaso, oloneke olusu yenda ovyo vyalwa vali enene - ndifeta ño olusu yimwe okuti sa yimwinle".

TRADUÇÃO (português)
Se eu fosse questionado pelo pessoal do Censo sobre a energia eléctrica em casa, eu diria mesmo que não a tenho. Quando pago pelo consumo de electricidade, eu choro, pois - já fiz os cálculos, os dias de falha são a maioria - tenho estado a pagar por algo que não vi. (De um cidadão que falava ao programa Omenle Yocinjomba, da Rádio Benguela, hoje)

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Divagações: SOBRE O VALOR DO OSSO ENTRE OS OVIMBUNDU, OU COMO NASCEU O POEMA "REGISTO MAGNÉTICO DA MAMA"

Quando em meados da década de 1990 do século 21 testemunhei a grande festa de efiko (ritual de iniciação feminina) entre os Vakwandu, grupo cultural pré-Bantu predominante no chamado território dos Vandombe, fiquei mais ou menos decepcionado. Estava de visita à comuna da Kalahanga, tinha eu pouco menos de 15 anos, e o meu pai, outro militante profundo pela tradição oral, cuidou de nos aproximar à manifestação cultural daquele povo. Como filhos do chefe (o velho era o administrador comunal), foi-nos granjeado um lugar privilegiado. A minha decepção nada tinha que ver com o ritual em si, ou com eventual diabolização infundada de que este tem sido vítima ao longo dos tempos, mas tão-somente pela forma como anciãos procuravam, digo mesmo compulsivamente, roubar um pedaço de carne ao lume e ir chupando o tutano, tão agarrados ao osso, sujeitando-se a pauladas do guardião da copa. Na minha concepção, como julgo ser na da maioria de outros Ovimbundu, o osso é a parte menos valiosa do animal. Temos um provérbio segundo o qual “u olya omuma ka litami losonde”(quem come o fígado não se suja com sangue). Subentende-se existir no fígado o maior prestígio, tanto assim é que, quando se prepara uma refeição para visitas ou pessoas relevantes, o fígado é das partes que não devem faltar. Outro provérbio diz que “u ka li po ombelela yaye akepa” (ao ausente, há o risco de sobrarem apenas ossos para conduto, mais concretamente o que seria acompanhante para o pirão de milho ou de farinha de mandioca, que é invariavelmente a base das principais refeições no meio rural). Bem, é certo que não seria pelo valor antropológico do osso que o estudante de origem Ovimbundu andaria aos pontapés com o conteúdo da anatomia, que atribui ao esqueleto o mérito do equilíbrio do corpo humano. Para terminar, partilho uma das várias lições indirectas que retenho da minha mãe, nesta máxima: “cimwe, nda tuyola, tuyolela ño apa kuti ovayo akepa” (às vezes, se é que nos rimos, só o conseguimos porque os dentes não passam de ossos). E aqui vai um poema que vem no meu livro GUARDANAPO DE PAPEL, pág. 15. NósSomos. Lisboa, Portugal, 2014:

REGISTO MAGNÉTICO DA MAMA

Calha às vezes filho
que o arco-íris pinta cantos farpados
no centro da mão do tímpano

Também calha filho
que o arco-íris traz cócegas à pétala

O músculo então cede
com a leveza da água
afinal
dentes são só ossos.

Gociante Patissa, Catumbela, 16 Maio 2014 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

"OSONGO YASENGA"

Voltei ao bairro em que cresci e me deu as dificuldades (para amadurecer) e as alegrias (para o necessário equilíbrio). É uma sanzalita chamada Santa Cruz. Querem agora que a achemos no município da Catumbela, mas o bom mesmo é que as ordens administrativas não comandam memórias - logo, aquilo Lobito é. Morei lá entre 1987 e 2008. Mãe de um é tia de todos, pai também, o mesmo com os irmãos. Também é colectiva a dor, a perda ou, quando for o caso, a vergonha. Gosto de interagir com jovens, mas gosto muito mais é de ouvir os mais-velhos, mergulhar em seus suspiros, diálogos, sem deixar de estar atento às pragas rogadas, sejam abertas ou veladas. Em Umbundu, quase tudo é por atalhos, servido na bandeja da metáfora, do fragmentado, da inferência. Na saudação, um breve tema de conversa com uma vizinha (a propósito, nós não temos isso em Umbundu, não dizemos o seu equivalente literal "una tulisungwe", mas sim "ukwetu umwe tukasi laye kumwe", ou seja, uma pessoa companheira). A mais-velha lamentava-se de vários óbitos em dias seguidos, ao que se seguiu um profundo... "OSONGO YASENGA". No contexto do diálogo, queria dizer que o bairro está sem graça. Mas "osongo" pela mesma grafia e fonia pode também significar semente, ao passo que com uma ligeira alteração na entoação pode significar espinho.
Gociante Patissa

terça-feira, 6 de maio de 2014

Trecho de um hino na língua UMBUNDU (que ouvi/cantei na IESA - Igreja Evangélica Sinodal de Angola, princípios da década de 1990)

"Si kaivale ko
okuti kilu lyeve ndukombe
ndipita ombamba
ndonelehõ yakala lomenle

kekumbi ka yi ko vali
yowuka lutanya
mwapita ombela
noke yaloluka"

TENTATIVA DE TRADUÇÃO

Que eu não me esqueça
de que sou hóspede na face da Terra
de efémera passagem
como a flor que sorriu de manhã

Já não existe de tarde
murchou com o sol
bateu a chuva
e ela ruiu.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Extracto do conto UM NATAL COM A AVÓ

Todas as vezes que veio à cidade, Velha-Mbali se deparou com deselegantes surpresas, mas a desta vez, batia seguramente todos os recordes. A anciã chegou mesmo a tossir de choque ao cruzar com miúdo de doze anos apenas, não mais do que isso, girando a cidade para cima e para baixo com cuecas e sutiãs de mulher adulta no ombro a gritar: «arreou, arreou no negócio, é a última zunga do ano!!!»

E como a ousadia é a alma do negócio na zunga, o rapaz abordou-a insistentemente, para não dizer chatamente:
— Minha mamoite, arreou na tanga; olha “mónica”; táqui surtião…

Velha-Mbali ainda tentou fingir indiferença, mas não aguentou. Arremessou, com toda a violência, o galo de raça contra a cabeça do adolescente:
— Vai faltar respeito na tua mãe, que não te deu educação!!!

O zungueiro, que nunca vira tão intempestiva reação de potencial cliente, logo uma “mamoite”, meteu-se a correr. E no máximo da sua quilometragem! E devia ter uma cabeça muito rija mesmo, o zungueiro, já que o impacto da pancada fez rebentar a corda que imobilizava as patas do galo. Este, que não imaginava as fêmeas que por ele esperavam para reprodução lá no kimbo, meteu-se em fuga no frenético trânsito urbano em hora de ponta. Era ver o desespero da anciã diante do risco de perder o animal. Isso é que nunca! Eis que arregaçou o espírito, e lá ia atrás do galo, ela que também já não tinha lá muita juventude nas pernas. De repente… — puapualakatá, pumbas! — acabava de ser atropelada por um kupapata, que vinha em sentido contrário.
— Netele, a njali, ndakapele okuteta onimbu… (É desculpar, minha mãe, a intenção era fazer corta-mato...)
— Amõla wange, watopa muele cokuti vetapalo omo oteta onimbu?! (És tão parvo assim, meu filho, que queres corta-mato na estrada?!)
— Vangecele, mamã…(Perdão, mãezinha…) — suplicava o kupapata, enquanto se levantava do chão e inventariava os danos.
— Mbi cakulimba okuti olikondakonda opitaela?! (Esqueceste que quem contorna também costuma chegar?!)

O kupapata de imediato ligou para o serviço de bombeiros, que localizou a família e levaram Velha-Mbali ao banco de urgência. Algumas horas mais tarde, estava aplicado o gesso. O kupapata tinha muitos danos, a começar mesmo pela compra de outro galo de raça — regressar de mãos a abanar é que Velha-Mbali não aceitava de modo algum!

Gociante Patissa, in “A ÚLTIMA OUVINTE”, pág. 62-63. União dos Escritores Angolanos, Luanda, Angola, 2010.

sábado, 3 de maio de 2014

Diário: SÓCIOLINGUÍSTICA DO PASSEIO

Investi metade da tarde de ontem no centro da cidade do Lobito, deambulando como exercício de "queimar tempo", um pouco por incompetência de certa agência bancária, onde suportei longa fila até ouvir que "o colega que atendia Western Union saiu para almoçar, passa mais logo ou então amanhã". Procurei saber daquela simpática senhora que me atendeu se o banco fecharia caso o colega estivesse doente, ao que respondeu, a contra-gosto, que não. Bem, como discutir não me resolveria o problema, saí ao encontro da celebração da vida que é no fundo o quotidiano, os diálogos fortuitos e a observação de imprevisíveis fenómenos sociais. Numa rua da Zona Comercial, passo por duas senhoras, nessa mania muito angolana de estorvar o passeio. Uma era funcionária (em pé e de passagem), a outra a mendiga (sentada, encostada entre a árvore e a parede). Era grande a empatia. A funcionária elogiava a bebé de mendiga, num registo de diálogo coloquial e terno, na língua Umbundu, que a seguir reproduzo, ciente embora da poesia que se perde com a tradução:
“Avoyo, mba wakula!” – Vejam como está grandinha!
“Oco, wakula!” – É, está mesmo grande!
“Omõlã mba ka vala!” – A criança não custa!
“Ocili, omõla ka vala, civala ño imo” – É verdade, o que custa mesmo é a gravidez.

E lá continuei a caminhada com a certeza de que algum troco a funcionaria deixaria para a mãe da bebé, sem deixar de especular que o pai da criança, algures na cidade, aguardava pela esposa que faz da mendicidade o posto de ganha-pão.

domingo, 27 de abril de 2014

Oratura: ONDUKO YOLONGONJO YAFETIKA NDATI? - Qual é a origem da toponímia Longonjo?

Há uma localidade chamada Longonjo, na província do Huambo. Segundo uma fonte oral entrevistada recentemente pela Televisão Pública de Angola, o nome vem de "olongonjo", que é o plural de "ongonjo", utensílio que se resume em desbastar o tronco seco de uma árvore até ter uma cavidade. O uso daquele instrumento está directamente associado à era da escravatura ou a do trabalho forçado na Angola colonial, uma vez que se caracterizava pelo seu transporte ao ombro, o que representava um peso enorme (o do instrumento e o do material para obras de construção, podendo ser sólido ou líquido). Há inclusivamente uma canção de revolta na língua Umbundu, a qual destaca: "kombya, kongonjo, konungi yovava; ndicambata ndati? (Dão-me a panela, o ongonjo e o reservatório de água; como querem que leve tudo isso de uma vez?) Hoje, o "ongonjo" é usado para outros fins, geralmente feito bandeja para a comida de animais domésticos (porcos e outros) em criações de baixa renda. Resumindo, devia haver um tipo de obra que deu a impressão de uso excessivo de "olongonjo", pelo que a região ficou conhecida como "pimbo lyolongonjo" (aldeia dos "olongonjo"). A fotografia foi captada em 2010 na fazenda de uma pessoa amiga no município do Caimbambo, província de Benguela.

Gociante Patissa, Benguela, 27 Abril 2013

terça-feira, 22 de abril de 2014

"OCINIMBU WATETA KONYOHÃ OCO COVE" (adágio Umbundu)

"OCINIMBU WATETA KONYOHÃ OCO COVE" (adágio Umbundu) - o pedaço que cortares da cobra é que é teu. Enquadramento: sendo a cobra o bicho perigoso que é, devemos dar-nos por satisfeitos, por muito pequeno que seja o pedaço que lhe conseguirmos arrancar. Em rara oportunidade, todo o pouco serve.

A PROPÓSITO DO CURSO DE FOTOGRAFIA QUE TERMINOU HOJE, MAIS CEDO DO QUE PREVISTO... como se diz em inglês, "too good, to last" (bom demais, para durar). Ainda assim, prefiro o Umbundu da questão.

Divagações: SOBRE O ADVÉRBIO DE LUGAR NO PORTUGUÊS “DE CÁ”

Cruzei há dias, no mundo digital, com uma questão aparentemente simples, se vista nos termos normativos da língua portuguesa: qual é a diferença entre “Onde” e “Aonde”?

Conjecturando que a intenção era corrigir e apontar caminho, resolver-se-ia reafirmando que “onde” é usado para indicar lugar estático, ao passo que“aonde” enuncia movimento em relação a um local (para onde). Logo, dir-se-ia, pela bitola simplista muito mediatizada entre nós, que os angolanos usam errada e frequentemente o “aonde”. Mas porquê? Sendo infinito o inventário de causas, partilho a tese de que, em contexto bilingue, os erros, muito mais do que as coincidências tidas como correctas, nos podem abrir as portas à compreensão da coabitação do português com as outras línguas nacionais de matriz africana, na lógica de que os idiomas veiculam culturas.

É certo que a confusão entre “onde” e “aonde” não tem propriamente uma nacionalidade, o que não nos impede de analisar pequenos contextos e circunstâncias. Quanto à construção frásica, na minha língua materna, Umbundu, no mais das vezes, o complemento circunstancial de lugar fica no fim. “Ove okasi pi?” (estás onde?) Ora, temos aqui um som pouco musical, talvez por isso mesmo tenha sido "ajeitado" pela linguagem popular como em “wenda pi?” (vais aonde?). Julgo morar aqui a origem do uso indiferenciado do “onde” e “aonde” na linguagem informal. Como hipótese, podíamos dizer que se trata de uma interferência que se passa de geração em geração.

Um abraço de Gociante Patissa, Benguela, 22 Abril 2014-04-22

quinta-feira, 17 de abril de 2014

"Osanji yomeke yipayela evi vilya" (adágio Umbundu)

"Osanji yomeke yipayela evi vilya" (adágio Umbundu) - Galinha cega debica para as que vêm.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

terça-feira, 8 de abril de 2014

segunda-feira, 7 de abril de 2014

"Nda ndufeko, si kwela osivili; osivili otamba yomulingi. Haka!"

Entre 1988-90, na comuna da Equimina, município da Baía Farta, uma das canções de militares (para sua auto - motivação), na língua Umbundu, dizia: "Nda ndufeko, si kwela osivili; osivili otamba yomulingi. Haka!"

TRADUÇÃO
Se eu fosse moça, não me casaria com um homem civil; o civil é comparado à uma tampa de moringue. Oh!"

ENQUADRAMENTO
A imagem que me ocorre também não é concreta. Será por ser algo de pouco valor a tampa de moringue? Seria porque a tampa de moringue é algo que se perde facilmente e quiçá difícil de preservar (do tip, é um companheiro susceptivel a rusgas mais tarde ou mais cedo)? Ou seria por se ver que a maioria dos moringues cumprem o seu papel sem se ressentir da ausência de tampa? Para terminar, já agora, os moringues do teu bairro, no que te lembres, tinham tampas? Hahaha

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ORATURA: "Pungunda wukwanjeke, opo pekuto lyukwavipepe" (adágio Umbundu muito cantado nos hinos cristãos da igreja da minha família)

"Pungunda wukwanjeke, opo pekuto lyukwavipepe" (adágio Umbundu muito cantado nos hinos cristãos da igreja da minha família) - na queda (trambolhão?) de quem levava o saco, é onde se sacia o faminto.

Enquadramento: se algum abastado que leva um saco de produto alimentar (farinha, por exemplo) cai e o conteúdo se espalha no chão, aquele que enfrenta a penúria aproveita. Ou seja, na dialéctica da vida, a desgraça de uns pode representar oportunidade de outros. Bom dia

quarta-feira, 26 de março de 2014

Akulu valinganga hati: "NDA O KASI KUWA, KUVI KA PASULE KO." (Umbundu)

Akulu valinganga hati: "NDA O KASI KUWA, KUVI KA PASULE KO." (Umbundu) - Os mais velhos disseram: SE ESTÁS NO LADO DO BEM, HÁ QUE IR VISITANDO O LADO DO MAL (ou seja, Se ESTÁS NA FARTURA, É BOM EXPERIMENTAR DE VEZ EM QUANDO O LADO DA ESCASSEZ).

PS: partilhado por Luis Kandjimbo através do grupo ETUMBULUKO LYE LIMI LYUMBUNDU. Tradução minha